Reportagem de Sofia Camilo
Fotografias por Kianu Lima

31 de Março 2017
@Books, Lisboa

Na passada sexta-feira, a 31 de Março, a noite de Alcântara encheu-se com MC Ary, João Valadas, Allison, Raphael e Inês, que todos juntos constituem o Rolézinho. A banda “guiada pela ginga brasileira” (mas assumidamente multicultural) celebrou o seu segundo aniversário no clube nocturno Books, levando todos os que se juntaram numa magnetizante viagem pelo hip hop, R&B, blues e “tudo o que faz bem à alma” com a presença de quatro convidados com energias completamente diferentes (Cálculo, Kristóman, Valas e Malabá) e, ainda, com uma surpresa reservada para o final.

MC Ary tinha já marcado presença no Copenhaga quando lhe surgiu a possibilidade de formar uma banda que chamasse um público para esse espaço e para o seu cenário musical mais característico: o hip hop. Nesse sentido, tomou a iniciativa e foi chamando alguns elementos, outros foram-se juntando, e ao longo de sucessivas modificações no alinhamento original da banda, o projecto Rolézinho foi ganhando forma. E hoje cresce cada vez mais, transcendendo as linhas que marcam as suas bases em termos de estilo musical e mergulhando em toda uma diversidade de géneros que trouxe à sua actuação no Books uma vibe livre de “rótulos”, descontraída, enérgica e repleta de vida à qual foi impossível ficarmos alheios.

II Aniversário Rolezinho

O que torna o Rolézinho especial é o facto de, a olhos vistos, cada elemento da banda trazer para terreno comum algo muito único, algo genuíno, algo seu. O interessante é que fazem isto sem deixarem de conseguir “fundir-se” entre si e com os convidados diversificados que já actuaram a seu lado, com igual liberdade musical.

O evento no Books foi mais um exemplo disso. Um espaço giro, amplo, agradável e ecléctico com um ambiente tranquilo do qual retiraram máximo proveito numa noite cheia de boa música na qual, indiscutivelmente, valeu a pena estar presente.

II Aniversário Rolezinho

Após uma breve apresentação da banda, entrou Cálculo. O primeiro convidado da noite abriu a sua actuação com o single “Salvar o Mundo” numa verdadeira explosão de energia. Se, como foi dito por MC Ary, Cálculo teve de dar luta para conseguir fazer da música vida, puramente pela paixão que tinha por esta arte, foi precisamente essa sensação (de amor genuíno pelo que se faz) que passou cá para fora. Aliando funcionalmente o hip hop ao groove contagiante de uma sonoridade fresca mas substancialmente próxima ao funk e ao soul da década de 70, Cálculo veio representar (e bem) o panorama nortenho, entregando-se de corpo e alma a cada palavra que cantou (destaque para a “gema escondida” que é a voz deste artista, verdadeiramente neo-soul). O público vibrou com esta abertura nada tímida e “aqueceu” para o resto da noite.

II Aniversário Rolezinho

Do Norte seguimos para o Algarve, com a entrada pesada de Kristóman. O rapper, que perto de 2004 começou a dar os primeiros passos no mundo do hip hop e desde então nunca mais parou, entrou em força e sem medos, presenteando o Books com alguns dos seus singles, entre os quais não pôde faltar, claro está, o hit “Carapaus”. Com rimas agressivas e sem filtros, espontaneamente, fez das palavras o que quis. Para Kristóman, rimar é tão fácil como respirar, e os versos foram fluindo com a naturalidade de quem parece nem se estar a esforçar (no bom sentido). Quer se goste quer não, é certo que ele mandou a casa abaixo.

II Aniversário Rolezinho

Depois deste “boom”, o ritmo tornou a suavizar, transportando-nos para o ambiente leve e descomplicado de Valas. O rapper/cantor/compositor natural de Évora iniciou a sua actuação com nada mais nada menos que “As Coisas”, um hit que fica no ouvido e que, ao público, que cantou do princípio ao fim, já era mais que familiar. Johnny Valas (também assim se dá a conhecer) soube contagiar os que o ouviam do princípio ao fim com a sua boa onda e descontracção. E foi então que mergulhou na atmosfera intimista de “Dragões e Demónios” (obra associada ao projecto Nébula), sentindo cada palavra, cada nota e deixando isso transparecer para o exterior, conseguindo chegar a cada um de nós. E, no fundo, é isso que se pretende.

II Aniversário Rolezinho

O alinhamento de convidados (previstos) encerrou com a presença forte de Malabá, que entrou em peso, sem hesitações nem inibições. O que marcou a actuação de Malabá foi, acima de tudo, a autenticidade. Malabá deu-nos música, deu-nos uma energia incomparável, deu-nos tudo o que podíamos pedir dele e muito mais. E, fê-lo sendo genuíno, espontâneo e repleto de vida do princípio ao fim, chegando a saltar do palco do Books para junto do público e passando a mensagem de “Como Tenho Feito” cara a cara, sem medos, sem pudores, puramente pelo gosto de estar a fazê-lo. Foi precisamente a explosão de energia que se estava a pedir.

Todos os MCs presentes tornaram a subir ao palco para cantarem juntos mais uma vez e o Rolézinho percorreu alguns hits do hip hop, como não poderia deixar de ser, levando-nos a reviver alguns dos clássicos que marcaram os bons velhos tempos do panorama nacional da vertente musical desta gigante cultura. Mais uma vez, a banda fez a sua magia e o resultado foi excelente.

II Aniversário Rolezinho

Quando pensávamos que a noite se aproximava do fim, eis que chega uma presença inesperada. Papillon (que facilmente reconhecemos quer por integrar a crew GROGNation, quer pelos seus trabalhos a solo) juntou-se à festa e ninguém ficou indiferente. Acompanhado pelo Rolézinho, presenteou-nos com “Voodoo”. Foi simplesmente mágico. A maneira como Papillon se ligou ao instrumental da banda, assim como à voz de Inês, trouxe a um single já familiar uma tonalidade fresca mas igualmente envolvente.

No fundo, este segundo aniversário de Rolézinho veio dar-nos conta do quanto a banda tem vindo a crescer e o quanto ainda tem para dar (até à data, Rolézinho tem trabalhado sobretudo como banda de covers, acompanhando alguns dos MCs de maior renome do panorama actual e ajudando a lançar outros; contudo, começam a ponderar a hipótese de criarem os seus primeiros originais), sem nunca perderem o seu cunho pessoal, assumidamente livre de restrições e preconceitos a nível musical, e a sua capacidade de se misturarem com todo e qualquer artista em todo e qualquer ambiente, proporcionando uma noite em que, do princípio ao fim, se respirou boa vibe.

Escrito por Sofia Camilo
Fotografias por 
Kianu Lima

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