Texto por Sofia Camilo

O estúdio TimeOut do Mercado da Ribeira esgotou a sua lotação com a apresentação do álbum The Art of Slowing Down e Slow J conseguiu deste concerto aquilo que pretendia: uma noite em família, um espectáculo intimista e um público pronto a receber de braços abertos a sua obra-prima. A espera acabou e finalmente chegou até nós o primeiro álbum de longa duração do artista, com cópia física disponível no seu site oficial e para ser ouvido gratuitamente em plataformas como o Youtube, iTunes e o Spotify.

Não obstante aquilo que o hip hop traz à obra-prima de Slow J e a sua acentuada influência neste seu primeiro trabalho de longa duração, é  impossível ceder ao ato preguiçoso que seria “fechar” The Art of Slowing Down nessa caixa. A verdade é que este álbum rompe com ideias pré-concebidas dos vários estilos musicais, transcendendo as barreiras que separam géneros e convergindo num híbrido de múltiplas influências sonoras e numa verdadeira obra de arte, em toda a extensão da expressão. TAOSD é, antes de mais, uma viagem em que vale a pena perdermo-nos.

A CAPA

Ao entrarmos numa loja de CDs e discos, se pararmos um pouco para observar o que se encontra em nosso redor, automaticamente somos invadidos pelo impacto visual de uma imensidão de capas, em que num piscar de olhos distinguimos ora umas que explodem em cores quentes e vivas e formas psicadélicas, ora outras que se escondem em tons mais sóbrios e neutros. Um desenho, uma fotografia, letras grandes, letras pequenas…o que quer que conste na capa de um álbum, mentiríamos se disséssemos que, numa dessas lojas em que tantas vezes os amantes de música já se viram alegremente perdidos, nunca nos sentimos tentados a “espreitar” um álbum, precisamente pelo efeito chamativo da sua capa.

É por isso que, para mergulhar profundamente no trabalho que é The Art of Slowing Down, um mergulho para ser feito devagar, achei que seria interessante começar, precisamente, pela capa.

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Nesta, vemos um macaco. Está de olhos fechados, mostrando uma expressão da mais plena serenidade (que tão facilmente desmistificamos, talvez por a expressão do macaco ser em tantos aspectos semelhante à expressão de um ser humano), parcialmente imerso num banho quente, cujo vapor claro contrasta com o fundo escuro atrás. Sobre o trabalho artístico de Rui Gonçalves, designer gráfico responsável por um projecto, como o próprio afirma, muito especial para si, destinado a um álbum que considera “revolucionário” no panorama actual da música portuguesa, Slow J também deu uma palavra ao público sobre esta peculiar capa ao marcar presença no podcast  Três Pancadas, transmitido pela TV Chelas: “A capa era a única coisa que encaixava no álbum todo porque eu tenho uma cena um bocado bipolar. O macaco na capa tanto está calmo em meditação no banho quente como está, para mim pelo menos, a entrar em ‘super saiyan’ (alguns poderão fazer a associação da referência a Dragon Ball), e ele é que está a aquecer a água. Foi o que encaixou mesmo” afirma. Contudo, é só ao imergirmos nós também na refinada experiência auditiva de “The Art of Slowing Down” que vamos, música a música, letra a letra, percebendo o que esta capa quer dizer e, ainda mais que isso, a riqueza do que se encontra para lá dela.

“ARTE” (Meet SPEEDY)

Horas antes do espectáculo de lançamento que levou ao rubro o Mercado da Ribeira, Slow J, dando a provar aos fãs um pouco do que aí vinha, trouxe ao público o single Arte”. E como se este pequeno grande presente de antecipação não bastasse, com ele veio também um verdadeiro presente visual: o videoclip oficial, um trabalho incrível que junta a música escrita, produzida e misturada por Slow J a um vídeo realizado pela Made in LX, produzido com a ajuda do projecto Sente isto (uma associação de jovens que visa uma acção por via da arte), com a participação de um grande talento da nossa Cultura e do panorama actual da dança em Portugal, o b-boy André “Speedy” Garcia. Na verdade, este foi um projecto desenvolvido para ajudar na campanha de crowdfunding do dançarino, que actualmente dá aulas na academia de dança Jazzy e que alguns também podem reconhecer pela sua participação marcante numa das edições do Achas que Sabes Dançar.

No vídeo, cujas imagens são inteiramente a preto e branco, encontramos, além de alguns planos gravados em cenários urbanos, a intercalação de filmagens de Slow J a cantar/“rappar” a sua música. Contudo, o foco do videoclip é mesmo Speedy, que surge a fazer aquilo que faz melhor: a dançar (destaque para o momento em que o vemos a fazer uma longa spin no centro de um coreto). No fundo, aquilo que ambos fazem neste vídeo é precisamente a sua “Arte”, o que resulta numa plena harmonia visual e sonora.

Focando-me agora na música. Se acima já tinha referido que “The Art of Slowing Down” sai bastante da linha mais tradicional do hip hop, explorando também os trilhos de outros géneros musicais, “Arte” é um exemplo flagrante disso (aliás, um dos vários exemplos dessa particularidade que podemos descobrir neste álbum). Na verdade, se atentarmos na sonoridade deste single, talvez seja possível arriscarmo-nos até a situá-lo mais no campo da música alternativa, fazendo lembrar, sobretudo no instrumental final, a energia libertadora de uns Alt-J ou de uns Imagine Dragons, aliada a uma letra poderosa que já é presença recorrente no processo de criação de Slow J. “Mais baço que o chão das palavras escritas no pára-brisas, vistas do retrovisor; Vou traçando linhas, da fome ao encher da barriga; Do medo à fé meu amor” são estes os versos que iniciam “Arte”, em palavras que vão direitas à origem do conceito e que traduzem toda a magia inerente ao processo de criação, quando a arte é genuína e quando há paixão pelo que se faz.

THE ART OF SLOWING DOWN

Slow J já nos tinha conquistado com a letra de “Comida” e a vibe de “Vida Boa”, singles que já conhecíamos e que também integram este primeiro álbum. Até mesmo a sua “Serenata”, um single verdadeiramente magnetizante tocado em guitarra acústica que, até à data, tinha passado mais “despercebido” quando em comparação com os acima referidos, não pôde deixar de ocupar o seu merecido lugar no álbum. Contudo, “The Art of Slowing Down” revela pela primeira vez todo um conjunto de gemas escondidas.

Em “Casa”, somos transportados para uma atmosfera completamente diferente. Uma atmosfera de ritmos quentes, de ecos, de rap, de canto, de percussões marcadas, de leves toques na guitarra, com uma melodia que, numa harmonia perfeita, emana um aroma relaxante e explode simultaneamente numa energia viva e contagiante. “Casa” fala-nos do amor próprio, do amor pelo outro e do amor pela vida, “Casa” é leveza e paz de espírito, “Casa” é “mistura” e “música”. E Slow J brinca com as misturas nesta música descomplicada, transportando-nos numa experiência sonora em que se arrisca a explorar os ritmos africanos num processo de produção musical que, a meu ver, resulta num produto final brilhante.

Às vezes” já é uma viagem completamente diferente. Mais negra. Mais melancólica. Mais pesada. Mais intimista. Mais decadentista, até. E, no entanto, nas palavras que a compõem e em toda a emoção que a envolve, tão extraordinariamente genuína, se compreendermos o seu contexto. Quer nas palavras cantadas na voz roca de Slow J quer nos versos falados na voz de Nerve, “Às vezes” é angústia exposta como preto no branco, é a dor só e contida posta a nu através da música. É um confronto directo com a tristeza, com a apatia e com todo o tipo de emoções destrutivas que nos corroem por dentro em momentos de fraqueza. E é precisamente isso que transparece, numa introspectiva traduzida num encontro com esse nosso lado mais frágil, que por vezes ocultamos mas que é tão inerente à nossa condição humana.

Se falo na parceria que Slow J levou a cabo com um artista como Nerve, não posso deixar de mencionar “Pagar as Contas”, que junta pela primeira vez Slow J, um artista consideravelmente “híbrido”, a Papillon (Rui Pereira), reconhecido não só pelo seu trabalho dentro da rap crew GROGnation como pelo poder e conteúdo das suas letras, e Gson (Wet Bed Gang), um artista que não prima somente pelo flow e pelas suas rimas, mas também pelas suas incursões vocais no neo-soul. “Pagar as Contas” poderia parecer, à primeira vista, uma aposta arriscada, por reunir três artistas com energias completamente distintas que, como um todo, poderiam não funcionar. Contudo, funcionaram e de que maneira. A verdade é que “Pagar as Contas” acabou por resultar numa track poderosíssima com uma portentosa mensagem: alerta-nos para a obsessão da nossa sociedade pelo dinheiro e para o perigo que é deixá-lo gerir as nossas vidas, quando deveria ser ao contrário; deveríamos dar mais valor aos tesouros mais belos da vida e menos valor ao dinheiro. Nas palavras de José Mujica, presentes nesta música: “O que estamos a gastar é tempo de vida, porque quando eu compro algo, ou tu, não o compras com guita. Compra-lo com o tempo de vida que tiveste de gastar para teres essa guita. A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida gasta-se”.

Enquanto setubalense que é, Slow J não poderia deixar de incluir uma música em The Art of Slowing Down com o nome do rio que banha a capital de distrito. “Sado” é uma canção de esperança, é uma canção sobre vencer os medos, sobre ousar ainda que a maré possa estar agitada.

E depois temos “Biza”, uma canção que, estabelecendo uma comparação entre um passado repleto de histórias de trabalho e força de vontade e um presente com todos os confortos oferecidos de mão beijada. Estabelece-se a comparação entre os nossos antepassados, que lutavam diariamente para conseguirem ser felizes com os prazeres mais simples, pondo de lado os seus sonhos mais ousados, e nós mesmos, que queremos sempre ver mais além, o que pode ser visto quer como uma visão mais aberta das potencialidades da vida quer como ambição desmedida. Tudo isto se remete, no fundo, para o eterno dilema entre contentarmo-nos com aquilo que temos ou querermos mais. E a mensagem desta canção encerra ao som portentoso de um trompete.

Outra faixa que merece ser destacada é, sem dúvida alguma, “Sonhei Para Dentro”. Trazendo de volta um beat magnetizante outrora utilizado por Slow J para dar música a um vídeo do skater Bruno Senra, alia-o agora a uma letra que, na sua simplicidade, diz tanto. “Sonhei Para Dentro” desperta-nos para o momento em que, por medo, guardamos os nossos sonhos para nós e os sufocamos, o momento em que perdemos a vontade de lutar pelos nossos sonhos ou, por outra perspectiva, o momento em que tomamos consciência de que perdemos essa força de vontade, confinando-nos a uma vida em trabalhos ingratos e protestos que não nos guiam a lado nenhum. É preciso deixar de sonhar para dentro, é preciso querer muito, é preciso não deixar de lutar, é preciso ter coragem para enfrentar o medo.

Entre breves interlúdios como “Beijos” (uma brevíssima balada sobre o amor genuíno; “Quem já viveu dos teus beijos não suplica mais por um mundo melhor”) e “Último Empregado” (uma faixa breve mas de peso co-produzida com Fumaxa), destaco, talvez por gosto pessoal, “P’ra ti”. Uma faixa que passa tão rápido que quase me leva a querer que durasse mais tempo, quer pela simplicidade da sua letra, quer pela tonalidade country que quase a transforma num provérbio cantado sobre a introspecção, sobre a experiência e até sobre os altos e baixos da vida. É impressionante como cinco versos podem transmitir tanto e adquirir uma sonoridade tão bonita.

A viagem emocional, sonora e até sensorial que é The Art of Slowing Down termina com “Mun’Dança”. “Depois desta vida vai vir a outra” é a frase com que Slow J escolhe encerrar a sua obra e a que ouvimos ao longo desta última faixa. “Mun’Dança” é acima de tudo beat, é percussão, é ritmo, é musicalidade, é movimento, é também uma breve incursão de Slow J numa dimensão mais electrónica e a última descarga de energia pura, nua e crua num álbum onde esta não falta.

The Art of Slowing Down é um álbum que, pelo seu teor e conteúdo, nos ensina a ouvi-lo devagar. A desfrutar de cada nota, de cada palavra, da mensagem presente em cada faixa, de cada emoção…Convida-nos a sentir e a repetir. E, acima de tudo, expõe pela primeira vez um artista absolutamente sui generis e um músico até aos ossos. A verdade é que, no panorama actual do hip hop e até mesmo da generalidade da música portuguesa, Slow J mostra ser, cada vez mais, uma aposta promissora, não só porque reúne em si as capacidades próprias de quem é, em simultâneo, um excelente compositor, cantor e produtor musical (o que, no seu todo, é raro num só artista), mas também porque aquilo que cria vai muito para lá da superfluidade que, em certos casos, poderia parecer insuficiente aos ouvintes mais exigentes. Tem algo mais, algo único, algo muito “seu” que estamos, aos poucos e poucos, a desvendar. Se The Free Food Tape já tinha sido uma bomba, The Art of Slowing Down é uma verdadeira viagem de energia pura em que qualquer amante de música poderia perder-se.    

Texto por Sofia Camilo

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