Texto por Rute Simão e Fotografia por Diogo Cruz

17 de Março 2017
Estúdio Time Out

Ergo os pés para elevar o rosto e inalar ar puro. João é Slow, brando nos passos mas chama certeira em seca seara num dia de Sol tórrido. Fosse essa seara o Estúdio da Time Out, no Mercado da Ribeira, cheio pelas costuras e eu quase prostrada contra a parede. “Alguém está com vontade de ouvir as antigas?”, pergunta. “Temos tempo, tenham calma”. Ou não fosse o mote do álbum “The Art Of Slowing Down”.  Os acordes de Cristalina irrompem pela sala que parece pequena e, com o palco ainda vazio, é ao público que cabe a missão de dar letra à música.

Cortinas entreabertas e consigo vislumbrar Slow J. Sorriso de miúdo e enquanto dezenas cantam a sua música cá fora, ele abana a cabeça ao som da melodia; conseguisse eu mostrar-vos esse plano e parece que está sozinho no quarto, que não tem uma matilha de lobos famintos à espera.

SLOW J Apresenta TAOSD : 5º Aniversário Rap Notícias

Entra em cena a dizer que queria ser como os grandes cantores, dos palcos gigantes, aplausos, vénias e aplausos. Isto é Arte e o público já o sabe desde que o Sol raiou, surpresa antecipada, água na boca para o resto da noite. Os braços elevam-se, as vozes sobrepõem-se e estamos em Casa, cosida com linhas africanas. “Casa é em todo o lado, pode entrar quem quer, casa é o mundo inteiro”. Nem todos entraram. Os bilhetes para o 5º aniversário do Rap Notícias esgotaram ainda a quinta-feira ia a meio.

Nos entretantos da line up, Slow J é parco nas palavras, postura simples, um e outro obrigada, um olhar que percorre o estúdio de uma ponta a outra culmina sempre com um “Tanta família, só família aqui hoje”. T-shirt preta, braço quase sempre atrás das costas. O que já nos mostrou até agora foi suficiente para nos encher de tanto e para nos sentirmos felizardos por sermos espectadores deste momento. ‘’Decidi apresentar o álbum sem o lançar cá para fora porque é mais interessante assim”.

SLOW J Apresenta TAOSD : 5º Aniversário Rap Notícias

Entre os cumprimentos à plateia e Beijos, J diz que Às Vezes está perdido entre o que quer ser e o que ainda não é. Nerve entra fugaz e certeiro. Isto não são sons, João Baptista nunca sonhou ser tão eloquente, diz que só reza por música diferente. Aquela que não é Comida mas alimenta as almas esganadas que ousam roubar as letras a Slow J e entram em simbiose com ele.

Dois anos foi quanto demorou a fazer nascer este filho, semente plantada provavelmente muitos anos antes, nos tempos do Sado. O trompete entrelaça-se nos fios de luz vermelha que descem do céu e João brinca; os lábios seguem-lhe o rasto da melodia enquanto sorri. Hora de prosseguir mas há um “Fred, Fred, pára lá. Estamos a ouvir o álbum da 1 à 15, quero deixar isso claro. Por isso deixei também o som do trompete dois minutos”. Fred Ferreira, que ministra a bateria ao lado de Francis Dale nas teclas, consente.

Papilon e Gson são presença esperada em Pagar as Contas mas o tempo está favorável e espraiam-se até Vida Boa. O manager e amigo de longa data, Tomás Martins, é chamado ao palco selando o agradecimento com um abraço. A seguir convida uma e outra pessoa do público. E mais outra. Num ápice é engolido pelos fãs e o palco já não é palco, estamos todos ao mesmo nível. “Tenham só cuidado uns com os outros”, ouve-se. A festa vai dura quando dois seguranças passam por mim antes de irem aliviar o momento, há que acalmar os ânimos, que ainda há mais para vir.

Speedy, o b-boy que nos acordou hoje de manhã, também se junta à reunião familiar. “Alguém está com vontade de ouvir as antigas?”, pergunta. “Tinta, tinta, tinta”, respondem. “Temos tempo, tenham calma”. E é o Objectivo que antecede a Tinta da Raíz arrastando todas as goelas treinadas atrás. É de forma Cristalina e com a testa a pingar que a noite termina. Da mesma forma que começou, J abandona o palco deixando a casa acompanhada pelo beat.

SLOW J Apresenta TAOSD : 5º Aniversário Rap Notícias

Versatilidade vocal que se nos toca da espinha ao estômago, uma riqueza sonora e musical estupidamente bem ligada como Hemingway e Gellhorn. Voz de camaleão, que tão bem beija a guitarra portuguesa como abraça África. Este é só o primeiro álbum, um dos mais esperados de sempre do Hip-Hop nacional. Depois dessa vida vamos ver a outra. E dentro do rapaz de Setúbal está tanto ainda por vir. Então, fé nessa merda noite e dia João.

Texto por Rute Simão
Fotografia por Diogo Cruz

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