Review por Rúben Fernandes

Quando pensamos em Tyler, The Creator maturidade talvez seja a última palavra que nos vem a cabeça. Quando apareceu no panorama hip-hop internacional com o seu grupo, OFWGKTM, o rapper de temas como “Yonkers” ou “She” (este último com a participação do também conhecido Frank Ocean” não era mais do que um jovem imaturo com uma atitude de “não quero saber” perante a vida. Associados à sua música, os seus comportamentos por vezes, no minímo, bizarros catapultaram-no para os holofotes e para os sistemas de som de uma geração de adolescentes que agora já é adulta. E, tal como os seus fãs, Tyler cresceu.

“Flower Boy” é um pouco a antítese de todos os trabalhos do rapper californiano até à data. Colocando de lado a sonoridade abrasiva e as rimas de “shock value”, Tyler aparece na sua versão mais madura e polida até à data. O título do trabalho dá-nos uma pista sobre que tipo de sonoridade vamos poder ouvir, com instrumentais leves e um ambiente quase floral na maioria das faixas. Prosseguindo a metáfora das flores, este parece ser também o verdadeiro desabrochar de Tyler do ponto de vista lírico, principalmente a nível do conteúdo. A primeira faixa, “Foreword” serve como uma perfeita introdução ao álbum, situando-nos dentro dos conflitos internos de um rapper que se começa a questionar sobre o depois da fama e do sucesso e de quando essa altura chegará. Seguem-se mais duas faixas que mantém a toada sonora da primeira, com influências neo-soul e onde mais uma vez Tyler aparece mais despido do que nunca, abordando a sua vida antes da fama em “Where This Flower Blooms” e aparecendo na sua versão mais romântica em “See You Again”. “See You Again” é mesmo um dos destaques do álbum não só pela qualidade da música mas como também por ser a primeira música com um tema mais romântico por parte de Tyler que não parece um bocado deslocada, forçada e constrangedora. Pontos extra por não ter ido completamente para o universo pop para conseguir falar de temas amorosos, conseguindo manter a sua integridade, a coesão do projecto e a qualidade musical.

A sonoridade calma e primaveril mantém-se ao longo do álbum salvo algumas excepções que, sinceramente, são muito bem-vindas para que o álbum não se tornasse demasiado monótono e maçador. E se as músicas mais substanciais melhoraram a sua qualidade, também os “bangers” o fizeram. “Who Dat Boy” com a participação de A$AP Rocky” é outro dos destaques deste projecto, com um instrumental carregado de “bass” e versos e flows de qualidade de ambos os rappers.

Por falar em A$AP Rocky, deixo também um elogio às participações deste projecto. Praticamente todas as faixas têm pelo menos alguns “vocals” de outra pessoa que não Tyler, The Creator. Normalmente muitas participações podem afectar a qualidade de um projecto … mas não é aqui o caso. As participações foram bem escolhidas e bem colocadas, seja por fazerem parte da faixa certa ou por fazerem a coisa certa nas faixas em que entram. Acima de tudo, nenhuma participação foi grande que chegue para ofuscar o Tyler (este álbum foi todo dele) nem pequena demais para ser insignificante. Todas acrescentaram algo que a música precisava mas Tyler não conseguiria. “Features” muito bem utilizadas.

Tyler_Capa

Outro elogio para a produção, toda da autoria de Tyler, que também aí mostrou crescimento. O álbum soou sempre coeso e enquadrado com aquilo que parecia ser pretendido pelo menos pelo título, pela escolha da cover art e das faixas iniciais que ditaram a toada do projeto. Como ponto mais negativo, algumas das faixas pareciam arrastar-se muito depois da mensagem ter sido passada tornando-se redundantes. Cortar um pouco do excesso teria elevado este projecto para outro patamar. Ainda assim, mais um ponto positivo para a forma como a tracklist está estruturada de forma a que músicas mais enérgicas apareçam logo a seguir a estas faixas que se tornam mais monótonas.

No cômputo geral, este parece-me ser o projecto mais bem conseguido de Tyler. Alguns anos depois do seu aparecimento, “Flower Boy” é a sua afirmação e maturação como artista e como pessoa. As suas letras introspectivas que nos permitem entrar um pouco mais na mente do artista eram, na minha opinião, aquilo que tinha vindo a faltar a um rapper que sempre se mostrou talentoso, diverso, destemido e pouco convencional (no bom sentido da palavra). Um projecto que é bom e recomenda-se para todos aqueles que já eram fãs do líder do colectivo Odd Future mas também para aqueles que não o eram porque, certamente, passarão a ser.

Review por Rúben Fernandes

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