O talento sobressaí em qualquer tom!

Longe vai o tempo em que Cálculo era um nome estranho no movimento e, felizmente, para trás ficou o longo período de espera pelas suas novidades musicais desde o momento em que o rapper e produtor de Barcelos que surpreendeu e prometeu nestas andanças em 2010 ao vencer a competição “Urban beat battle” e com o lançar do single de estreia “Bem-vindo à selva” (de um desde então muito aguardado primeiro álbum que chegou a conhecer outros temas mas, creio, nunca viu a luz do dia).

A distância da curiosidade/promessa ao esquecimento por vezes pode torna-se curta, mas confesso que em todo este decorrer de 4/5 anos me recordo de ocasionalmente questionar e pesquisar por novidades suas. A verdade é que o tempo voa e talvez os barcelences (ou aqueles que lhe são mais próximos) possam até fazer a seguinte afirmação melhor do que eu mas com certeza que, quer a nível artístico ou pessoal, Cálculo não esteve todo esse período de braços cruzados.

2015 chegou e colocou finalmente “A zul” o panorama, dando a conhecer em maior força o seu talento num primeiro trabalho completo de originais, muito pessoal, de olhar interior, chegando-nos a dar a conhecer o Hugo (além da veia artística de Cálculo) que se havia entretanto mudado para residir em Londres. Maduro, versátil, com conteúdo, musicalidade e com rimas afiadas (a defender também uma Cultura Hip-Hop, com agradecimento aos reais das 4 vertentes – “Unidos num movimento”) é assim que se apresenta, posiciona e se evidencia como um Artista em Certeza no Hip-Hop nacional!

“A zul” já havia tido faixas instrumentais em tom escuro e claro, mas para 2018 estava reservada uma tonalidade ainda mais específica… “Tourquesa” surge mais singelo, numa imagem de transparência, com um abrilhantar característico da musicalidade de Cálculo. 13 faixas construídas num ambiente pensado e criado a propósito, repletas de valores, sentimentalismo, introspecção e de um honesto positivismo construtivo que dá gozo ouvir e repetir.

O álbum arranca com brilho próprio na faixa intro “Estrelas” sendo esta uma boa prova/demonstração que nada em “Tourquesa” é ao acaso; Um arranque em boa vibe onde Cálculo se apresenta tranquilo, grato e com um cuidado especial às armadilhas da vaidade e fama/prémios. Da simplicidade do respirar à atitude de parar para ver as estrelas ficam as metáforas que nos sugerem logo de início à reflexão e percepção de que afinal “pequenos somos nós”…

Numa continuação natural surge um daqueles temas que (a par com o tema “Vem” na presença do refrão de Ace) nos embala e impele posteriormente a crer que podíamos ser parte daquele coro final. Cálculo e Macaia em conjunto, ou melhor, a genialidade de ambos surge em “Melhor de Mim” numa passada rítmica motivacional, auto-construtiva, instrospectiva e viciante que termina em jeito gospel com um coro de igreja a reforçar uma ideia central que pelo meio tropeça, e bem, num pedaço de “Senso Comum” de Mind Da Gap.

O álbum flui numa escuta fácil e, por entre auto-reflexão e sentimentalismo, vai abraçando episódios (muitas vezes figurativos) onde facilmente nos revemos/imaginamos. Creio que este é também um dos trunfos de Cálculo – esta proximidade que é também fruto da simplicidade, honestidade e dos seus valores que transparecem (à semelhança de um mar azul turquesa) junto à sua musicalidade.

E, como é de um álbum de Hip-Hop que falamos, há lugar reservado a preceito não só para Egotripping (registo que lhe assenta sempre bem) – numa “Bala” em destaque pelas rimas a sangue frio rasgadas pelo brilhantismo de DJ Flip e/ou no claro atear de “Fogo” ao ‘movimento Bro-Bro’ com a ajuda dos incendiários versos de BRDZ e Cuss – como também para o clima de Festa – lançado em “Coisas Sérias”, em contraste com o que o título nos sugere, um tema capaz de demonstrar que só por ser um som festivo não tem que ser vazio de valores/conhecimento.

Quem ler deve estranhar mas, esforcei-me até aqui (e estou até surpreendido) para não focar sequer na produção pois, como é óbvio, é esse um dos seus principais talentos que reluz no formato um pouco mais crú de “A zul” e transforma este “Tourquesa” em precioso. Inteiramente da sua autoria, todo o ambiente e planeamento já aqui mencionado começa e termina neste cuidado com os instrumentais e na harmonia rítmica que é inerente a Cálculo. Isto, sem minimizar ou descurar aqui os seus skills de MC (bem pelo contrário); a flexibilidade no flow ou a versatilidade nos seus refrões cantados ajuda a que nada escape ao resultado final.

A nível de participações, Harold foi também um dos convidados no trabalho para deixar diferente o tema “Iguais” e, Fábia Maia a voz convidada a fazer dupla com Cálculo na faixa final deste trabalho.

“Tourquesa” finda abruptamente ‘quando a música acaba’ – “Q.A.M.A.” –  numa faixa onde Cálculo expressa ‘Quando a Música acaba eu não existo mais’; felizmente para nós, aqui é só por play outra vez!

Podem adquirir o CD nas plataformas digitais ou em formato físico por encomenda através do email tourquesareserva@gmail.com

Tourquesa comprar

P.S.: Um desabafo a título pessoal, (e ainda que no tema “Q.A.M.A.” seja aqui relembrada a faixa “Isto é Hip-Hop” no repetir da frase ‘Reais fazem amigos falsos fazem rivais’) percebo que este já não é um trabalho de apresentação e posicionamento, mas gostava de voltar a ouvir aqui mais desse conteúdo de afirmação e apoio entre vertentes.

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