Entrevista por Afonso Ventura

Estivemos à conversa com Rui Costa, mais conhecido por RAPTRUISTA, nome artistico como assina os seus sons. Com 30 anos, natural da zona da Quinta do conde, Seixal, este peso pesado da Liga Knockout já soma uma Mixtape em nome individual intitulada “Mixtape do Eu” e, outra em sinergia com o seu parceiro SMILE de nome: “O Teu Rap Não Me É Estranho”. O seu estilo bastante cru e voltado para um rap mais oldschool aliciou-nos a conhece-lo e aqui estão algumas palavras da nossa conversa com Raptruista.

H2T – “Raptruista” é um trocadilho que à primeira vista associamos a altruísmo, é essa a ligação? Revela-nos o significado do nome e qual a mensagem que pretendes passar?
Raptruista  Antes de mais, obrigado pelo vosso interesse em querer saber um pouco mais sobre mim. Em relação ao meu pseudónimo, é daí que advém, também. Não me querendo auto-retratar como um altruísta, como é óbvio, mas sou fã de pessoas e de animais altruístas. “Raptruista” para além dessa conotação, encontras nele o meu nome “Rui” e aquilo que faço ou tento fazer.. “Rap”. Achei perfeito dentro da imperfeição de não ter aquela alcunha que se adequasse àquilo que pretendia. E na altura em que tudo começou, tinha sido Pai à pouco tempo, e achei nesse nome o sentido, ganhando assim mais força a ficar com esse pseudónimo.
Sinceramente a única mensagem que tento passar com o meu nome, é para mim mesmo. Como deves imaginar, o caminho não é fácil, menos fácil se torna, quando assumes o que queres e a onde queres chegar. Existem muitas barreiras, e a maior é imposta por nós próprios. Aquela barreira que traz as perguntas “Para quê?” “Porquê?” “Vale a pena?” … E é nessas alturas que o meu nome por aquilo que significa para mim, responde-me a todas as perguntas automaticamente.

H2T – A “Mixtape do Eu” é uma viagem onde vais apontando erros pelas várias temáticas que abordas, sentes que a tua música pode colocar cabeças a questionarem-se? É esta a tua principal intenção?
Raptruista  A mixtape “Do Eu” foi um desafio a mim próprio. Cerca de um ano antes, eu juntamente com o Smile lançámos a mixtape “O teu rap não me é estranho” um projecto online feito basicamente em cima do joelho. Beats da net, algumas letras, senão a maioria, feitas na hora/dia. E metemos as faixas no youtube. Pessoalmente foi nessa altura que eu senti que era ouvido. Sei que não haviam muitas pessoas a ouvir, mas as que ouviam faziam questão de o dizer – pediram o trabalho físico, deram feedback, mandaram mensagens. Ou seja, tivemos poucos concertos, mas o feedback preencheu esse vazio de não tocares ao vivo.
Depois disso senti que podia ter dado mais, e que fiquei a dever… Decidi então voltar a fazer mais uma mixtape.
Queria algo mais pessoal, demonstrar alguns pontos de vista, e que as pessoas ficassem a conhecer-me um pouco melhor, através da mixtape. Sem dúvida que foi uma viagem. Mas foi esse o desafio, saber se conseguia chegar ao fim dessa viagem com os meios que tinha. Tentei pôr na minha música aqueles conselhos que não ouvi, outros que ouvi e que foram fundamentais para mim, histórias que me marcaram, momentos bons, momentos maus, ambições, sonhos, etc.. passou por aí a minha intenção.
Hoje acima de tudo, tento explorar ao máximo aquilo que posso fazer, vários temas, vários estilos, várias métricas, flows, etc.. não quero falar só de pão, nem de arroz, música é liberdade, e actualmente a minha intenção é ser livre com o rap/música, sempre sentindo aquilo que faço, quando deixar de sentir, não o farei.

Raptruista2

H2T –  Sentes que a Liga Knockout é uma boa forma para novos rappers se darem a conhecer?
Raptruista  Sim, sem dúvida. Mais do que isso até. Na minha opinião a LKO com o apoio da HHSE, foi um dos principais intervenientes impulsionadores do “movimento” no que toca a seguidores de rap português nestes últimos 5/6 anos. Em relação à oportunidade que concede a novos talentos, é no meu entender uma plataforma que tu podes aproveitar claro. Mas penso que não chega lá ir, se quiseres mais para além das battles.
A oportunidade clara que a LKO te dá, é a de pisar um palco com casa cheia, experiências, conhecimentos, saber ouvir e aprenderes a respeitar o público. Deve haver muitos rappers, e bons rappers que ao longo da sua carreira não actuaram para mais de 300 pessoas. E é essa a verdadeira oportunidade que a LKO te dá, na minha opinião.

H2T – Participaste numa iniciativa contra o tabagismo. Sendo o Rap o género musical predileto dos adolescentes, achas que este papel interventivo dos rappers se está a perder?
Raptruista  Penso que não. Enquanto existirem rappers interventivos, irá continuar a haver rap interventivo. Se são os mais ouvidos actualmente ou os que têm mais “força”; Não, não por culpa deles mas por culpa das massas. É talvez o reflexo do nosso país em termos globais no que toca à prioridades e àquilo que realmente precisamos/importa. Um exemplo parvo, actualmente conheço famílias que no frigorífico não têm o que comer, mas se for dia de jogo, com certeza arranjam dinheiro para beber 6 cervejas. Ora, transportando esse tipo de pensamento para o movimento “rap”. Achas que esse tipo de pessoas irá valorizar o rap interventivo?! Não, mas não é por isso que o rap interventivo perdeu o valor.
Um dos grandes motivos da tua pergunta, deve-se também ao Target que faz o rap mexer/crescer, que enche casas, festivais, etc.. A grande maioria são adolescentes ou quase adolescentes, que vivem na casa dos pais, em que as suas preocupações actuais são basicamente saber o que é que vão vestir, pôr o telemóvel à carga durante a noite, seguir tendências, saber o que é que é o almoço na cantina e saber se o pai vai “dár aquela guita para ir aos festivais de verão”.. sem julgar como é óbvio, porque é a realidade em que vivem actualmente. E sem ironias, faz parte da evolução de cada um, e são apenas fases. Acredito.
Sendo directo e respondendo à tua pergunta, o rap interventivo não perdeu o valor, apenas não é tão valorizado.

Raptruista1

H2T – Quais são os planos para o futuro, colaborações e novos projetos em vista?
Raptruista  Não tenho nada planeado em termos de projectos, aliás, como qualquer um gostava de fazer um álbum de originais, mas neste momento não penso muito nisso. Quero fazer algo que me orgulhe, e penso que se o fizesse agora ficaria wack pa c***. Neste momento vou apenas me mantendo activo com singles acompanhados de vídeo, tentando sempre aplicar aquilo que tenho estudado/aprendido, nas horas em que me posso dedicar ao rap.
É um caminho mais longo, sem dúvida, mas está-me a dar prazer que seja assim, e enquanto sentir isto desta forma, não irei parar. Aliás gostava só de salientar, que sem o apoio da minha família e daqueles 2 ou 3 amigos que estão comigo mesmo de olhos fechados, nada deste pouco que tenho, dava para andar. São eles a minha melhor colaboração/inspiração.
Os meus planos para o futuro, é ir andando primo, sei daquilo que preciso e a onde quero ir, o que é preciso melhorar e que terei de passar por várias etapas sendo que neste momento pretendo respeitar todas elas.
No que toca a colaborações com outros, tenho sorte em ter duas pessoas que trabalham directamente comigo que são o Smile e o Lucro Zero. E espero um dia encontrar um produtor disponível, que se identifique com a energia e que viva isto desta forma também.

Entrevista por Afonso Ventura

Leave a Comment