Alguns conhecem-no por Bugster na vertente graffiti, outros por Xksitu na sua faceta de MC, são dois lados artísticos do jovem criativo que representa a Linha da Azambuja e Top Dogs Crew. Apesar do recente lançamento da sua “Mixtape”, Xksitu é um nome a respeitar com mais de 10 anos no submundo do rap português.

H2T – Há 12 anos atrás, com todas as diferenças culturais/sociais e tecnológicas, lançavas o teu primeiro trabalho “Vermes da Cidade”. Assim de repente aponta-nos as principais mudanças ou diferenças que te vêm à memória em comparação a esse período.
Xksitu – No “Vermes da Cidade” eu fiz tudo sozinho. Tranquei-me em casa, produzi, escrevi, gravei, misturei, fiz as capas, distribuí os cd’s. Eu nem tinha internet. Naquela época, como tudo era mais limitado, havia muito a cultura do mérito para quem fazia as coisas acontecerem. Os ouvintes eram mais tolerantes, procuravam mais o conteúdo. Ao mesmo tempo era um sonho, porque quando ouvia um álbum, ele mantinha-se na minha playlist durante meses e eu vivia intensamente a vida dos mc’s portugueses. Hoje é diferente. É tudo instantâneo, dura pouco. Tudo tem que parecer profissional. A concorrência é feroz e seres respeitado no teu bairro parece pouco. Se não tiveres uma produção minimamente polida ninguém te vai ouvir e o mérito pessoal não é tão valorizado. É mais o produto final e a forma como o comunicas que importa.

H2T – Foste um dos artistas Headstart Records desde o início, porquê este hiato tão grande sem editar?
A Headstart foi um caminho ambicioso que surgiu antes do tempo. Se fosse hoje, teria sem dúvida um desfecho diferente. Quanto a mim, decidi criar uma base profissional mais sólida que me permitisse depois agarrar o que eu gosto mesmo de fazer. O rap é uma materialização da minha vida. Eu não vivo para escrever, eu escrevo o que vivo.

H2T – “A Mixtape” reúne músicas guardadas nos últimos 4 anos. Como surgiu a ideia deste projeto?
Quando entrei na Headstart queria fazer um EP. Comecei um projeto “rádio-friendly” com um produtor da minha zona mas morreu na praia. Entretanto fui sempre escrevendo, criando temas. Por ter trabalhado sem produtor, as sonoridades acabaram dispersas e com bases instrumentais simples. No final, não senti que lhe pudesse chamar “O Álbum”.

H2T – “Na Zona” é o primeiro single da tua Mixtape. Porquê a escolha deste tema e fala-nos um pouco sobre o videoclip.

É um retrato da minha zona. E não é daqueles que glorificam tudo. Eu simplesmente digo o que se passa por lá, sublinhando alguns aspetos do pensamento das pessoas e as consequências disso. “Fumício fulminante é sinónimo de moca, aquele mano era brilhante já fritou a pipoca” – vês muito disso. Escolhi-o para single, porque acho que é o som mais consensual e a minha zona, que é a minha base de apoio, se revê. O vídeo foi muito espontâneo. Tive o prazer de trabalhar com pessoal muito talentoso que resolveu tudo muito bem e com poucos meios.

H2T – Destaca-nos outro tema d’”A Mixtape” e fala-nos sobre ele
Gosto de todos os temas, uns mais pela sonoridade, outros pela mensagem. “Não É Fácil”, é uma sonoridade suave, quase uma balada. Não é um som que me faz abanar a cabeça mas sintetiza em poucas linhas e com bastante honestidade, a minha forma de tentar viver a vida. Se quiserem perceber isto, oiçam este tema à noite, no carro, parados num sítio tranquilo a beber uma.

H2T – Podemos esperar alguma apresentação ao vivo d’”A Mixtape”?
Eu gostava mas não é uma prioridade. Este projeto para mim é o fechar de um ciclo e quero já abrir outro. Se surgir oportunidade, lá estarei.

H2T – Tens já preparados próximos passos ou objectivos?
Eu tenho uma grande paixão pelo graffiti. É lá que está a minha base na cultura hip-hop. Quero tornar-me mais regular nessa vertente, assim como no rap.

Bugster

H2T – Actualmente é cada vez mais raro a existência de crews ou colectivos dentro desta cultura. Partilhas desta visão? Enquanto membro do colectivo TopDogs, fala-nos um pouco do que é, o que fazem e qual o simbolismo/importância que tem para ti.
Acho que hoje as pessoas além de serem mais individualistas, têm meios para fazerem sozinhas aquilo que querem. Por outro lado, o público tem mais facilidade em focar-se numa figura que concentra em si algum valor, do que distribuir a sua atenção por várias. Quanto aos Top Dogs, são manos com quem tenho uma ligação há anos. Todos têm uma base na cultura hip-hop da minha zona. Paralelamente, todos são bastante diferentes quer em termos de estilo, quer em termos de personalidade. Essa diferença enriquece-me, em termos de knowledge. Até hoje explorámos mais o lado do convívio, com temas muito espontâneos e ligados ao cultivo do alter-ego.

H2T – Revela-nos algumas das tuas maiores influências dentro da cultura Hip-Hop.
Por cá: Sam The Kid, Dealema, Valete, Kilú, M.A.C., Xeg, Beto di Ghetto, Keso, Ex-peão, Rey, Halloween e outros.
Lá fora: NTM, Gangstarr, Termanology, Nas, Mobb Deep, Apollo Brown, Talib Kweli, Pharoahe Monch, Torae, Masta Ace e por aí.

H2T – Uma vez que te movimentas como writer e MC, dá-nos a tua visão sobre a interacção das vertentes na cultura hip-hop em Portugal. Achas que é importante as vertentes se cruzarem ou conseguem subsistir bem em separado?
As vertentes em Portugal cruzam-se pouco. Por mim, cruzavam-se sempre, porque a minha raiz está aí. Contudo, não acho que seja necessário que isso aconteça.

H2T – Como vez actualmente o estado em particular do graffiti em Portugal?

Cruzei-me com parte dos artistas de renome no nosso país na cena da street art. Muitos deles migraram do graffiti tradicional para essa prática, mais individual, mais centrada na qualidade. Na minha opinião, o graffiti em Portugal não acusa falta de talento. Simplesmente a conjuntura económica, a falta de vontade política e o aproveitamento pessoal por parte daqueles que ganharam exposição levou a que, haja muito pouca coisa interessante a acontecer comparativamente ao que já vimos no passado.

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H2T – Queres deixar alguns props e/ou palavras de incentivo aos intervenientes da cultura?
Agradeço aos que trabalham para isto. O H2Tuga, a Hip Hop Sou Eu, o Rimas e Batidas, o Rap Notícias, a Supakrazy, entre outros, são pilares fundamentais no apoio, divulgação e agregação do que se vai fazendo. O pessoal da nova escola, espero que continue a trazer frescura. Os anciãos da velha escola, espero que voltem a trazer mestria e solidez.

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Entrevista por Rui Meireles e Sofia Meireles
Fotografias por Tiago Alves

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