Com um fim de semana em cheio à porta fomos ao encontro de Rita Martins – Bgirl Stereo, elemento da crew Loud Crowd, do norte do país. Atarefadas e preocupadas em proporcionar um evento cheio de mais valias à cultura e todo o público que passar este fim de semana pela 5ª edição do First Steps, com entrada grátis no Museu Nacional de Soares dos Reis do Porto, Rita Stereo aceitou dar-nos umas palavras onde também se juntaram todas as Loud Crowd a responder em conjunto. Conheçam a alegria e boa disposição de quem faz o que gosta e corre por amor à Arte.
 

H2T – Como surgiu o interesse pelo breakdance e como/quando começaste a praticar?
Rita Stereo – O interesse pelo Breakin’ começou quando eu já dançava há mais ou menos 5 anos. Desde os meus 8 anos que comecei a aprender bases de todos os estilos dentro do Hip Hop, mais tarde fiz parte de alguns grupos de coreografia, mas fui-me apercebendo que queria dedicar-me e aprender mais sobre o breakin’. Acho que foi pela liberdade nos movimentos e pelo risco, que me senti motivada a tentar – apesar do meu estilo predileto, até então, ter sido sempre o locking.

H2T –  Fala-nos um pouco das Loud Crowd. Quem são e como surgiu esta crew?
Rita Stereo – As Loud Crowd surgiram de forma natural: já todas dançávamos juntas e tínhamos uma amizade enorme, tudo isto juntou-se ao facto de querermos evoluir no breakin’ e criar projectos nesta área, e assim começou a história das ‘barulhentas’ (já podem perceber o nome). Neste momento somos 5 bgirls do norte: eu, a Li, a Spargui, a Maria e a Franky, que apesar de idades e vidas completamente diferentes, tentamos lutar por sonhos em comum.

LoudCrowd

H2T – Sendo Loud Crowd uma crew composta apenas por raparigas. É fácil afirmarem-se numa vertente ainda tão masculina?
Loud Crowd – É fácil por um lado porque havendo poucas mulheres são sempre valorizadas. Por outro lado, são poucas por algum motivo… É uma atividade muito agressiva física e psicologicamente, com atividades pouco pensadas para a realidade e mentalidade tradicionais femininas.

H2T –  Neste teu trajecto e crescimento há algum(a) artista a quem gostasses de deixar um especial reconhecimento, admiração e/ou agradecimento em particular?
Rita Stereo – Não há só um, são imensos e não só artistas, por isso basta-me agradecer a todas as pessoas que de uma forma ou outra se cruzaram comigo e me incentivaram neste percurso.

H2T –  Viajaste do Norte do País para participar e vencer a vertente de BGirl no “BreakIN Marvila #1”. Que tal correu a experiência?
Rita Stereo – Adorei, como sempre em Lisboa! Quando o ambiente é bom, é fácil sentir-nos confortáveis para dançar e darmos o nosso melhor, e acho que foi o que aconteceu! A única coisa que gostava que tivesse existido era mais bgirls, fazem-se pouquíssimos eventos dedicados às raparigas, por isso, quando aparecem devem ser valorizados.

RitaStereo

H2T – Fala-nos um pouco do First Steps que terá já a 5ª edição neste primeiro fim de semana de Julho. O que é, a quem se destina e o que podemos esperar nesses dias?
Loud Crowd – O First Steps é um festival anual, organizado pelas Loud Crowd, dedicado à cultura Hip Hop. Iniciamos este evento em 2011, com o objetivo de criar um “palco” para os bailarinos iniciados. Já começam a haver muitos eventos com categorias “kids”, mas quando começamos este projeto apenas existiam eventos com qualidade, nos quais os mais novos se sentiam intimidados a participar. Por isso, decidimos criar um evento onde a competição principal fosse mesmo dirigida à nova geração.

Neste evento podem contar com battles de breakin’ e top styles, cyphers, performances e muitos workshops. Acreditamos que mais do que incentivar a nova geração a participar em competições, é crucial apresentar-lhe a cultura, pois isso organizamos workshops gratuitos de mcing, beatbox, djing e graffiti também.

Não temos qualquer interesse financeiro com este evento, é feito da comunidade para a comunidade, e por isso, todos os anos, os fundos angariados são doados a uma causa social. Este ano irá ser para o Marco, um miúdo de 16 anos que após uma queda ficou com uma paralisia total e que neste momento precisa de todas as ajudas para a recuperação.

Temos a sorte de contar com o apoio indispensável do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, que nos cede um espaço lindíssimo, que proporciona um ambiente incrível. Este ano será nos dias 01 e 02 de julho, por isso preparem-se!!!!

FirstSteps

H2T – É fácil levar a cabo um evento como este? Quais as principais dificuldades?
Loud Crowd – Organizar a First Steps tem-se revelado um desafio muito maior do que simplesmente treinar juntas. Há graus de interesse e opiniões diferentes, formas diferentes de ver os fatores risco, tempo, investimento, reconhecimento e sucesso.

O maior sucesso é – para nós – ver as edições sucederem anualmente, a alegria dos miúdos nas cyphers, a treinarem especialmente para isto, a formarem novas crews e partilhar ali uma festa de TODOS. Na First Steps temos pouco reconhecimento pessoal e nenhum retorno económico, fazemos verdadeiramente isto pela continuidade do movimento e cultura Hip Hop. No entanto isso resulta num investimento redobrado à procura de patrocinadores interessados em colaborar para fazermos este evento continuar.

Sofremos pessoalmente com os desentendimentos internos e incompreensão de certas pessoas. No final vale a pena apenas porque sim, porque gostamos desta “loucura” e não ainda não vimos ninguém com coragem de a realizar, assim com independência política, criativa e desapego.

H2T – Qual a vossa análise ao actual estado do breakdance em Portugal e a sua interação com as outras vertentes Hip-Hop? Sugestões para melhorar?
Loud Crowd – O breakin’ em Portugal está com uma nova geração menos numerosa do que seria desejável. Tenho a impressão que vai estabilizar ou até decrescer o número de Bboys se o pessoal não se dedicar mais a ensinar e a criar novas crews. Em Portugal os Bboys/girls têm fome e sede de trabalho pago na sua área, esta míngua reduz o espírito de união, gera discórdia e cria uma vaga enorme de artistas que emigram para fora de Portugal ou escolhem outra actividade.

A geração anterior, que agora está na casa dos 30, não investiu na geração seguinte, e agora vemos que a geração que está entre os 18 e os 23 anos – como eu – é uma minoria. Espero que agora, tanto eles, como nós, se preocupem mais com isso e que incentivem o crescimento de uma próxima geração mais esclarecida e motivada.

Os elementos andam e sempre andaram separados. Na minha opinião, e não sou a única, acho que a tentativa de os unir é linda e produtiva pois cria um movimento artístico completo com expressão corporal, oral, musical, gráfica, plástica, tecnológica, estilística e códigos de conduta.

No entanto acabam por ser desmembrados em prol da especialização. Isso não é necessariamente mau mas devem estar os outros elementos presentes nos eventos de especialidade para honrar essa união.

H2T –  Revela-nos um pouco dos teus objectivos pessoais e sonhos relacionados com esta Arte.
Rita Stereo – Neste momento quero ter tempo para treinar regularmente e continuar a competir. Este ano, como foi o último ano da minha licenciatura, tive que deixar de ensinar, que é algo que eu adoro, por isso um dos meus objetivos principais é voltar a dar aulas e poder incentivar cada vez mais miúdos para isto!

À parte disso, gostava de desenvolver outros projetos além da First Steps e viajar muito.

H2T –  Mensagem Final
Rita Stereo – Obrigada H2Tuga pelo convite e pelo apoio constante à cultura! São necessários mais “voluntários” como vocês, que sejam motivados pela paixão por estas artes e que queiram realmente que o movimento seja reconhecido.

Vemo-nos já nestes dias 1 e 2 de julho, no Museu Nacional de Soares dos Reis para a First Steps!

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