Entrevista por: Rafael Oliveira

De Santa Maria da Feira, existem várias pessoas que, desde cedo, acompanham o movimento Hip-Hop que se tem vindo a instalar a partir dos anos 90. Existem, igualmente, alguns artistas que trataram de dar os seus primeiros passos num universo complexo, o da música. Um deles trata-se de Raz. Trata-se dum artista que, provavelmente, não conhecem, mas que o poderão conhecer melhor agora.
Raz possui um estúdio discográfico a que apelidou de Big Boss Records. Com quatro mixtapes ao longo da sua caminhada até hoje, iremos conferir com o artista as suas ambições, e de outros também, no panorama musical em Portugal.

H2T – Raz, como artista que já conta com algum portefólio no Hip Hop com quatro mixtapes (“Rumo à vida”; “Periferia do meu ser”;  “ Relatos” e “SMF Finest”), fala-nos um pouco sobre o teu caminho até agora.
Raz-  De forma a esclarecer, as mixtapes “Rumo à Vida” e “Periferia do meu ser” foram projetos muito imaturos musicalmente, tendo em conta que a primeira foi lançada com os meus 14 anos em 2010 e a segunda após dois anos. Posteriormente à “Periferia do meu ser”, andei um tempo parado, porque mudei de casa umas quantas vezes e não tinha um espaço em que me sentisse à vontade para gravar. Isso acabou por me distanciar um pouco das gravações, embora nunca tivesse parado de escrever. Já no ano de 2015, comecei a preparar a mixtape “Relatos”, acabando por se estrear nos inícios de 2016 e, ainda nesse mesmo ano, lancei a “SMF Finest” no dia 25/12.
Quanto a estes dois trabalhos,  sinto que já foram realizados com mais maturidade, com mais experiência e com muito mais foco. Eu já sabia que isto da música era o que queria, mas enquanto uma pessoa não atinge a idade adulta as coisas serão sempre mais simples e o passar dos anos deu-me uma nova perspetiva, uma nova vontade. Daí eu achar que das quatro mixtapes que lancei, somente estas duas últimas tratam-se de projetos com pés e cabeça.

H2T- Bem, então do que se trata a Big Boss Records? Quem faz parte dela?
Raz- A Big Boss Records trata-se do nome atribuído ao meu estúdio de gravação e qualquer um pode fazer parte dela, não há artistas exclusivos. Existem é artistas regulares que são da zona e que vão parando e gravando mais frequentemente os temas deles. As portas estão abertas para qualquer um, desde que haja vontade de trabalhar e para fazer boa música.

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Logótipo da Big Boss Records (foto retirada da página oficial)

H2T- Com o pouco reconhecimento que é atribuído a alguns artistas, apesar da qualidade presente, de que forma é que achas que os artistas locais tentam lidar com esta problemática que pode transformar-se numa desilusão e consequente abandono pela arte que fazem?
Raz- Como muitos já sentiram  (evidentemente, eu também)  a frustração de ver trabalhos e temas muito bons a serem lançados (tanto meus, como de artistas locais) e a não terem o resultado que era esperado é algo que acontece. No entanto, isso é algo que temos que saber dar a volta, usarmos essa tal desilusão e frustração como motivo para trabalharmos ainda mais. Claro que reconheço certos artistas que, com o passar do tempo, foram deixando de fazer música e alguns deles muito bons até. Infelizmente, a falta de apoio e de divulgação destes artistas locais leva ao desânimo e posteriormente abandonam esta arte.

H2T- A Big Boss Records trata-se somente duma produtora do género do hip-hop, ou poderá vir a ser algo mais no futuro?
Raz- Para ser sincero, como apreciador de diversos estilos musicais, gosto também de trabalhar noutras vertentes da música, não somente com rap, claro. É sempre um desafio poder trabalhar em algo que eu não esteja tão acostumado a fazer. Resumidamente, a Big Boss trata-se dum estúdio que tem as portas abertas a quem quer que seja, independentemente do estilo musical que seja, desde que haja sentimento para fazer o trabalho, todos são bem-vindos.

H2T- O canal de Youtube da BBR conta com a maior parte das músicas realizadas por ti e com algumas participações. No entanto, outras não, como o caso de ERRPÊ, Double B, Resac, entre outros. Consideras que esta mistura de talentos e da paixão pelo que todos fazem é o essencial, ou faltará sempre algo mais para alcançar outro patamar?
Raz- É verdade. Eu comecei por publicar faixas no meu canal pessoal do Myspace por volta de 2010. Na altura, a fazer rap na zona, eu só conhecia o DTM, Reluz, o Mr.B dos Tribozoo e poucos mais, daí a ter feito o meu percurso basicamente sozinho. O movimento local não era tão completo e tão forte como atualmente. A minha ideia com o estúdio, como já referi, foi mesmo juntar quem tivesse a vontade para fazer Hip Hop e trabalhar. É, a bem dizer, uma tentativa dos talentos locais ganharem um nome pelo bom rap que se faz e que se têm trabalhado para isso. Acho que com dedicação e empenho, sejam quais for os patamares, vão estar sempre ao alcance de qualquer um.

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Raz no estúdio (foto retirada da página do artista)

H2T- Como descreves a tua relação com a música? Existem “dias maus” no estúdio?
Raz- Posso dizer que respiro música. Os meus dias são passados no estúdio. Só não estou cá, quando estou a trabalhar na fábrica, de resto passo todo o meu tempo aqui. Aliás, só não passo o dia todo, porque o dinheiro tem de vir de algum lado e, infelizmente, ainda não consigo fazer vida a partir da música. Portanto, considero isto o melhor refúgio que pode haver. Existem dias maus para tudo. Tal como em certas coisas da vida, existem dias no estúdio que as coisas correm menos bem, porém acabam por “correr bem”. Ou seja, se uma gravação não está a sair bem, deixa-se isso para outro dia e compensa-se noutras vertentes, como na escrita, ou na produção. Acaba sempre por sair algo de qualquer das formas. Penso que o melhor remédio para esses dias é mesmo não stressar e deixar as coisas fluírem.

H2T- Numa opinião mais pessoal, com base nas pessoas que já passaram pela BBR, que artistas consideras que poderão provar o seu valor a curto/médio prazo no panorama do Hip Hop?
Raz- Isso está ao alcance de qualquer um. Todos os que sentem verdadeiramente a música têm a capacidade de chegar lá, é necessário é manter a cabeça no sítio e os pés na terra. No entanto, torna-se óbvio que não se resume à vontade apenas, tem que existir talento também. Julgo que destacar nomes não é o mais correto, pois, como todos sabemos, ninguém começa no ponto, todo este percurso é inconstante; a evolução depende de cada um e do seu trabalho. De maneira geral, acho que o pessoal da zona e de arredores estão com trabalhos de qualidade e que vão deixar muitas surpresas nos próximos tempos.

H2T- Com isso em perspetiva, qual é a tua música preferida e qual será o teu próximo passo?
Raz- É dificil de escolher uma música favorita. Uma vez que as misturas e as masterizações são feitas por mim, chega a uma altura que, depois de ouvir os temas tantas vezes, os ouvidos ficam cansados mesmo. Mas, bem, se tivesse de escolher uma, seria a “SEGUE E SOMA” com o Double B, está um tema bem elaborado, a meu ver.
Presentemente, encontro-me numa fase que estou mais focado nos trabalhos de quem vem aqui gravar e na produção de beats para certos artistas locais. Quanto a temas da minha autoria, vou gravando alguns e com o decorrer do tempo decido se os lanço num projeto, ou, se, simplesmente, vou lançando faixas soltas.

H2T- Qual é a tua fonte de inspiração para a produção de beats ou na escrita? Tens referências nacionais, ou internacionais, que te auxiliam no teu trabalho?
Raz- A minha maior influência como artista, como será também para muitos, é Tupac. Penso que era uma pessoa muito genuína; o que mais queria era fazer rap e tanto fez pela cultura que deixou um legado enorme, mesmo após os 21 anos da sua morte. Todavia, qualquer pessoa que eu ouça, ou com que me cruze no mundo da música, acaba por ser uma influência, porque existe sempre troca de ideias que nos clareiam a mente. Posso referir um nome nacional que provavelmente poucos conhecem, porém foi um apoio quando voltei novamente a gravar em 2015: Galleno, rapper bracarense da Santuarius Records. Foi um senhor que soube dizer-me as coisas certas numa fase em que precisava e, por isso, terá sempre a minha gratidão e respeito.

H2T- Em jeito de conclusão, como descreves a visão que possuís sobre a cultura Hip Hop na atualidade? És da opinião que está cada vez mais degradada?
Raz- Não lhe chamaria degradada. Penso que hoje em dia, vê-se mais réplicas por aí, do que artistas completamente genuínos e isso acaba por não ser benéfico para o movimento.
Hoje em dia fazer rap é algo cada vez mais banal. Como é uma vertente que está a vender nos últimos anos no mercado, muitos querem tanto fazer a vida disto que acabam por se esquecer dos verdadeiros valores que constituem a cultura e lançam sons sem conteúdo algum. O que da minha parte vos posso garantir é que o Hip Hop em Santa Maria da Feira está vivo, está forte e, se tudo correr dentro dos conformes, estaremos nos ouvidos de mais gente brevemente.

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