Entrevista por Rafael Oliveira

Nerve é o seu nome. É o nome que, através de um estilo bastante peculiar, tem criado e cumprido as várias expectativas que se criam à volta do artista. Tiago (Nerve) foi moldando a sua imagem no panorama musical português desde 2006 com o lançamento do seu EP “Promoção Barata”  e dois anos depois, lança o seu primeiro álbum, “Eu Não Das Palavras Troco A Ordem” (2008). Depois de quase 7 anos ausente, apenas com algumas participações, Nerve regressa a Setembro de 2015 com um novo projeto, “Trabalho & Conhaque” ou “A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança”. A imagem que nos transmite é de ser um verdadeiro detective que, através das letras e frases únicas, nos conduz  para um pensamento invulgar sobre o monstro que é a sociedade e para a análise de várias problemáticas que o atormentam, pois “a vida não presta e ninguém merece a tua confiança”, tal como ele nos diz.

H2T – Revela-nos um pouco de como surgiram os teus primeiros passos no Hip-Hop. O interesse, a motivação, as condições, o lançamento do EP “Promoção Barata”. Em algum momento o facto de viveres em Abrantes teve uma influência clara neste teu trajecto?
Nerve –  
Nasci noutra zona do país, mas cresci em Constância. Não em Abrantes. Abrantes era a cidade mais próxima, onde estudei e onde tinha a maioria dos meus amigos, na época em que produzi o “Promoção Barata” e o “ENPTO”. Viver longe dos centros urbanos influenciou a minha música porque não segui nenhuma tendência de pessoal mais velho que fizesse rap antes de mim na mesma zona. Não havia ninguém além de mim. Hoje em dia olho para isso como algo positivo.  Quanto à música, por influência do meu irmão, cresci a ouvir bandas de Black e Death Metal: Behemoth, Burzum, Napalm Death, por aí. Fiz aquele percurso todo do Death Metal para a nojice do Nu Metal , que já tinha grande influência de rap em termos de sonoridade. Comecei a aperceber-me que as partes das músicas de Nu Metal que gostava mais eram as mais “rappadas”.  Daí até começar a ouvir rap compulsivamente foi um tiro. Nessa altura, ali no início do milénio, até mesmo bandas que não eram Nu Metal andavam a piscar o olho ao rap, como foi o caso dos Machine Head, no álbum “The More Things Change…”, que tinha uma versão da “Colors” do Ice T. Aliás, o pseudónimo Nerve foi, em parte, escolhido por causa de uma música de Machine Head, chamada “Struck a Nerve”.  No início os meios eram poucos. Gravei algumas faixas com um microfone de 20 euros, da Behringer, ligado directamente à torre do PC. Foi ao partilhar essas faixas na net que acabei por ser contactado pelo Martinêz e, mais tarde, receber o convite para lançar um disco pela Matarroa.  O “Promoção Barata” foi gravado nessas condições, com esse microfone, que ainda tenho.

H2T –  Para muitos o “Eu Não Das Palavras Troco A Ordem” é um álbum que marcou claramente uma diferença junto ao rap convencional, se assim se pode dizer. Conta-nos como surgiu e que tal foi a experiência da tua ligação à editora Matarroa?  E como foi para ti a recepção deste teu primeiro álbum?
Nerve –  
O “Eu Não das Palavras Troco a Ordem” foi o resultado do contacto com aquelas que se tornaram as minhas referências basilares. Aquela escola da Def Jux, Anticon e Rhymesayers da primeira metade da década passada. Como referi, não havia mais ninguém a fazer rap de forma significativa na minha zona, então isso pode ter sido útil para não me associar a um género específico que já existisse, ou para não soar a alguém que já estivesse a fazer rap português naquela altura, embora as influências que referi já estivessem de alguma forma  englobadas na sonoridade de alguns projectos da Matarroa. Na realidade, quando recebi o convite para editar o CD pela Matarroa, o único rap português que ainda ouvia era Matozoo e derivados. De resto, era só rap norte-americano. Colaborar com algumas das minhas referências portuguesas e editar um disco antes dos 20 anos foi uma boa aprendizagem. Nas raras vezes em que toco faixas do primeiro álbum durante um gig, continuo a sentir o impacto que teve na sua época. Receber reconhecimento por umas faixas escritas durante o secundário continua a ser estranho, mas é tudo OK.

H2T –  Qual a razão, se existe, para a ausência tão prolongada desde o “Eu Não Das Palavras Troco A Ordem” até ao regresso que fizeste em 2015?
Nerve
 – Não foi algo planeado. O álbum sofreu várias mudanças e chegou a estar praticamente concluído uma ou duas vezes durante o processo. Devido a várias razões, profissionais, académicas ou pessoais, não foi editado mais cedo. Verdade seja dita, também não comecei a trabalhar no álbum com o mesmo empenho que apliquei na fase final. Com o passar do tempo, o sentimento de urgência foi crescendo e nos últimos anos a coisa começou a tornar-se pouco saudável, já. No entanto, todos os anos colaborei em 2 ou 3 projectos. O único ano em que não saiu nada meu foi em 2013. E em 2014 compensei com uma compilação de 30 faixas e um EP. No ano passado editei o segundo álbum.
Acho que se este ano lançar um EP o universo racha ao meio e o céu cai nas nossas cabeças.

H2T – Desde novo que aparentas possuir um gosto especial e único sobre a escrita e a musicalidade. Quando é que sentiste a primeira necessidade ou te apercebeste da possibilidade de começar a escrever com qualidade?
Nerve
 – Feitas as contas, acho que ali desde o Verão de 2002 que todos os dias escrevo ou penso em ideias para escrever. Foi também o ano em que gravei as primeiras maquetes. Impecável, este Verão já vou poder citar a frase épica do Martinêz: “Comecei com 14, tenho 14 em cada ouvido”. Bestial.

H2T – Quais são as tuas maiores influências musicais portuguesas (e porquê)?
Nerve
 – Já que estamos, Matozoo, claro. Por razões óbvias. Em Portugal, são os “pais” do género de rap que ainda faço. Não é que ainda oiça Matozoo a toda a hora, mas são basilares.

H2T – No teu novo álbum, mais especificamente na faixa “Monstro Social”, pareces descrever a sociedade como algo que te põe os nervos em franja. O que mais detestas na sociedade e quais são para ti os verdadeiros monstros sociais?
Nerve – 
Eu não fico a olhar para sociedade à procura de aspectos negativos para criticar ou de ideias para escrever o que quer que seja. Foco-me mais nos aspectos que gosto ou não em mim. Uma vez que estou integrado na sociedade, acaba por haver alguma crítica social inerente à coisa, mas não é essa a minha prioridade. É mais egoísta que isso. Posso dizer que odeio mesquinhice, condescendência, odeio a celebração da mediocridade, odeio os rebanhos todos, odeio o facto de contactos, simpatia e dinheiro falarem mais alto que talento. Por aí fora.

H2T – Algumas das tuas faixas mais antigas contam com participações com artistas do Hip-Hop nacional como a Capicua, Orelha Negra, SP Deville & Wilson, Víruz e outros. Se, hipoteticamente, pudesses contar com a participação de algum rapper, terias alguma preferência em particular?
Nerve –
 Actualmente há um ou dois rappers meus amigos com quem começa a ser meio estúpido ainda não ter faixas gravadas, como o Keso ou o Tilt. Tirando isso estou sempre aberto a experiências, mas para já não há mais nenhum que me ocorra.

H2T – Relativamente à faixa “Cidade Perfeita”, quais seriam para ti os elementos essenciais para construir a cidade utópica? Os “Feios, animais e fumadores” ficariam impossibilitados de participar nela?
Nerve
 – A Cidade Perfeita é o que tu quiseres. É onde encontrares o combustível para subsistir na cidade verdadeira. É só um escape. No meu caso é a música. Não é um espaço físico real, nem um mecanismo que faz tudo funcionar às mil maravilhas para toda a gente. A frase “feios, animais e fumadores ficam à entrada” é irónica, a propósito da possibilidade de encontrares um dístico de “Proibido fumar” ao lado de um dístico de “Entrada proibida a animais”.

H2T – Quando atuas em palco, tal como já revelaste, o público não tem que balançar o braço ou acompanhar as tuas músicas enquanto cantas, até porque o teu estilo musical segue uma tendência distinta do habitual. Como descreverias um concerto de Nerve?
Nerve – 
Eu não faço questão que as pessoas estejam quietas e caladas durante o gig, embora o formato seja regra geral intimista. Também não vou pedir que façam barulho ou batam palmas. As pessoas fazem o que quiserem. A ideia é só cada um aproveitar a experiência como lhe der na telha, sem interferir com as dos outros. Claro que gosto de ser bem recebido. Quem já foi a um gig meu, sabe que eu gosto daquele alívio cómico e que ninguém está ali de corda ao pescoço. Basicamente é isso, acho que é um espectáculo simples, mas denso e intimista, indicado para pequenas casas de espectáculos, embora seja adaptável a palcos maiores.

H2T – Com apenas 27 anos atingiste já uma marca considerável no panorama musical e, de maneira geral, tiveste um feedback positivo em relativamente pouco tempo. Que tipo de conselhos poderás dar aos que ainda estão nos primeiros esboços?
Nerve – 
Cada um constrói o seu percurso de forma diferente. No entanto, numa época em toda a gente faz música e a oferta é gigantesca, posso sugerir que quem está a começar não se deixe entusiasmar pela pressa de apresentar algo antes do projecto estar maduro e ter qualidade. Em 2007, quando gravei o ENPTO na Mina, o Víruz disse-me que um álbum deve ser uma consequência natural do trabalho que já vem a ser desenvolvido há algum tempo, e não uma meta só por si. Ou seja, é importante estudar a coisa, testar o “mercado”, por aí fora. Tão ou mais importante que isto, na minha opinião, é não ficar preso a lamúrias de que ninguém dá apoio e que não há condições e essa conversa fiada toda. Há que trabalhar. Se não demorar 1 ano, que demore 2. Ou 7.

H2T – O que podemos especular sobre o futuro de Nerve?
Nerve –
 Mais música, mais novidades, uma reedição ou outra de trabalhos anteriores, novo merch, mais datas. Por aí. O plano de conquista mundial habitual, que já está em curso. Mas bom bom, em vez de especular, é ir acompanhando as novidades em facebook.com/avidanaopresta.

H2T – Para finalizar, existe alguma curiosidade ou espécie de mania que possuas e que acredites que te possa dar “boa-sorte”?
Nerve –
 Boa sorte? Porque preciso de boa sorte? Preciso é de trabalhar, como os outros. Mas pronto, vá, costumo sacrificar uma galinha preta com um punhal alado, antes de cada espectáculo. Tirando isso, nada do outro mundo.

Entrevista por Rafael Oliveira

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