Entrevista por Guilherme Gomes

Depois do álbum de estreia “Conto” ter sido um dos trabalhos mais reconhecidos no panorama do Hip Hop nacional no ano de 2015, L-ALI lançou no passado mês de março o EP “Baço”. Falámos com ele para conhecer melhor a sua carreira e este novo trabalho.

H2T – Porque L-Ali?
L-Ali –
O nome surgiu quando já tinha 2 faixas com o Vulto. Não queríamos um ep formal e ‘’clássico’’. Chegámos ao conceito do surrealismo XPTO e percebi que queria ir por aí com o primeiro projeto. O L-ALI veio nesse encadeamento de pensamentos, pensei em Salvador Dali no meu nome. Fui brincando com as palavras e cheguei ao L-der = L-there = L-ALI .

H2T – “O Conto” tem um estilo muito próprio, o “Baço”  vai estar na mesma linha ou vais- te reinventar?
L-Ali –
Não tenciono repetir um projeto , com isto digo que não quero repetir sonoridades. Acho que o “Baço” é um projeto mais homogéneo , vem com distorção e com uma abordagem uma beca diferente, dentro dum egotrip/egofrito procurei algo mais sujo ainda e entrar num ambiente meio claustrofóbico … Cuspir o que o baço não filtrou.

H2T – Quem produziu a maior parte do “O Conto” foi o Razat, agora neste ep a produção fica a cargo do Pesca, quais são as diferenças em trabalhar com os dois?
 L-Ali – As rastas …. (risos). O processo não muda muito, produzimos a maior parte lado a lado . Tanto com um como com outro … Eu digo mais ou menos o que procuro , eles dão o twist deles e depois é irmos malhando até chegar ao beatolas . Os resultados são completamente diferentes mas o caminho é o mesmo.

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 H2T – Porquê a opção de não mostrar a cara?
L-Ali –
Quis distanciar-me do que faço ‘’artisticamente’’ se é que se pode tratar como tal… A máscara foi uma forma de o fazer. Não por medo do confronto até porque gradualmente o pessoal vai sabendo quem sou, mas porque quis que o pessoal ficasse intrigado com a música e com a personagem que acabei por criar… Encontrei a máscara nas caldas na altura em que estava a começar a reunir beats para o “Conto”. Surgiram os primeiros concertos com o VULTO  e fui tocar com ela, achei que dava um ar pesado a cena.. e acabei por curtir da reação do pessoal quando viu um gajo de máscara no palco a rimar, ficaram meio a toa e gosto disso. Tenho um álibi e posso culpar a máscara de tudo no final de contas – i´m on my jim carrey shit …(não)

H2T – Porque começaste a escrever?
L-Ali –
Eu curtia de rap desde os 13 anos mais coisa menos coisa . Mais tarde no meio de bebedeiras comecei a dar uns freestyles com os amigos e acabámos por viciar nisso … Deram-me a dica que devia escrever umas cenas e acabei por o fazer. Nos meus anos o pessoal reuniu-se e ofereceu-me um mic e a partir daí foi sempre a gravar testes excrementais com misturas ainda mais merdosas, até encontrar pessoal que percebe da coisa.

H2T – Quais são as tuas maiores referências tanto no panorama nacional como no internacional
 L-Ali – Referências ? Acho que não sairia daqui a enumerar a quantidade de música que consumi e acho que tudo o que ouvi teve a sua importância. Mas desde Common Sense, Eyedea, Guru jazzmatazz, J dilla, Madlib, MF doom, Atmosphere, Aesop Rock, Zion…  Tudo isto por influência de um bro que tive a sorte de conhecer que era uns quantos anos mais velho que eu mas era um ‘hiphop head’ máximo, então introduziu-me a nomes de indie rap que na altura para mim era desconhecido.  Apresentou-me Blueprint e isso mudou uma beca a minha maneira de ver o rap. Até as cenas mais recentes aparecerem e darem o seu twist interessante, desde Oddfuture, Rejjie snow, ho99o9, Cult Mountain, por aí…

H2T – Tencionas fazer instrumentais num futuro próximo?
L-Ali –
 Já tenho umas quantas brincadeiras, mas daí a lançar, não sei.

H2T – Vai haver alguma faixa com videoclipe deste teu último trabalho?
L-Ali –
Sim, estamos a tratar disso.

H2T – Que queres transmitir com o novo EP
 L-Ali – Eu queria uma cena pesada , que tivesse impacto tanto lírico como sonoro .. Estar baço para mim é estar com os sentidos afetados, com distorção de pensamentos.  Daí a sonoridade por si também ser suja. “Baço”  é suposto trazer o ar pesado para os phones, embaciar aquilo que se julga ser um egotrip. Ter batalhas de supostos egos, interiores e exteriores, que muitas vezes surgiram por perguntas que a cabeça faz quando está mais baça. Há muito verso ‘’retórico” neste EP, mas o que serviu para mim na altura também pode servir para alguém. Acabei por construir o baço (órgão) um dos agentes do sistema imunitário, que limpou muita coisa. Mas ficou ali uma boa mistela filtrada. Tirando isso, foi graveiro até não poder mais para fazer tremer bochechas. Temperar bem com verde aromático e deixar em banho-maria. A Crate Records está a transplantá-los como poucos fazem… Encomendem!

H2T – Podemos esperar alguma colaboração com outro rapper em breve?
L-Ali –
Sim. Um EP com o Tilt produzido pelo Pesca que deve sair este ano e mais um EP com 2 mc’s todo produzido pelo VULTO. … Mas cada coisa a seu tempo .

Entrevista por Guilherme Gomes

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