Kadypslon, nasceu em 1979 em Santo António dos Cavaleiros, local onde cresceu e enraizou experiências que o ajudaram a cimentar a sua paixão pela cultura Hip-Hop. Emigrou para o Reino Unido, local onde curiosamente esta paixão ganhou forma e notoriedade com o lançamento da mixtape “Pandemonium” em 2013 e, mais tarde, o projecto  “Sem Fronteiras Vol.1” em 2016.
2017 ficou marcado pela chegada do seu primeiro álbum de originais “Refúgio” onde a presença Boom Bap é presente e bem profunda, numa atitude construtiva e educativa. Fomos ao seu encontro para saber mais não só deste seu novo trabalho como também conhecer melhor o seu percurso, ideais e os seus planos em continuidade.

“Refúgio” em formato físico – disponível nas lojas Fnac ou por contacto directo com o artista através do email kadypslon@gmail.com ou pela sua página de facebook.

H2T – Desde os anos 90 a acompanhar o movimento nacional. Fala-nos um pouco dos tempos idos, do que te levou a ser MC e apaixonar pela Cultura Hip-Hop.
Kadypslon – Assim que as parabólicas chegaram a Portugal tive o primeiro contacto com Rap. Os beats, a atitude, os vídeos, tudo era fantástico . Identifiquei-me com artistas como Kris Kross, Da Youngstas, Das EFX, etc. Estes artistas faziam-me ficar colado à televisão durante horas, tentava fazer as minhas rimas em português, depois com o aparecimento de General D e Da Weasel, ainda incentivou mais o desafio. 

“Confesso que o meu reencontro com Rap/Hip Hop foi após uma fase turbulenta na minha vida.”

H2T – Em 2004 tomaste a decisão de emigrar para o Reino Unido onde resides até hoje e, em 2013 e 2016, soltas finalmente os teus primeiros projectos em formato mixtape. Quais foram as principais razões desta espera?
Kadypslon – Mesmo antes de emigrar, as minhas letras já estavam no baú há um tempo. Procurar independência quando és jovem adulto pode ser uma tarefa difícil e emigração não é diferente. Confesso que o meu reencontro com Rap/Hip Hop foi após uma fase turbulenta na minha vida.

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H2T – “Sem Fronteiras Vol.1” foi um projecto diferente, repleto de convidados e muitos deles de outras nacionalidades. Como surgiu a ideia deste trabalho e como foi trabalhar com tantos artistas? 
Kadypslon – Como devem saber, Inglaterra hoje é uma nação multicultural. Comecei a levar Hip Hop a sério e na correria atras de estúdios, eventos, concertos, deparei-me com artistas de várias nacionalidades. Nessa altura já tinha o “Pandemonium” concluído, então cada artista que encontrava, dava uma cópia e convidava para trabalhar, a partir daí as coisas começaram a acontecer e 2 anos depois já tinha 18 faixas gravadas com colaborações .

“Vivemos numa era repleta de distrações e grande parte de nós acaba por se desligar e não encontrar um propósito”

H2T – 2017 trouxe-nos o teu “Refúgio” como primeiro álbum de originais. Fala-nos um pouco deste teu trabalho, o porquê deste nome e qual tem sido o feedback a este projecto?
Kadypslon –  O “Refúgio” foi algo mais íntimo. Achei que era importante apresentar-me ao público com algo mais real , algo que tivesse uma ideia mais realista do meu caráter. Refúgio é o que todos precisamos para encontrar o nosso centro, para um entendimento melhor de quem somos. Vivemos numa era repleta de distrações e grande parte de nós acaba por se desligar e não encontrar um propósito, vive-se sem direção e acredito que este seja um dos maiores problemas sociais que vivemos. Apesar de o Disco não ter alcançado muitas pessoas, o feedback tem sido positivo.

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“As pessoas não têm noção do Poder do Rap”

H2T – “Motivar”, “inspirar”, “guiar”, “transformar”, “avisar”, “ajudar”, “acordar”.. são algumas das palavras que usas como referência na faixa “Revelação” quase como uma missão. São estes para ti os grandes propósitos de um MC?
Kadypslon – Sabemos que algo não esta certo neste mundo e isso sempre me incomodou, eu pertenço à classe trabalhadora, não tenho muitos recursos para fazer grandes diferenças na sociedade, então uso a maior arma que tenho, a minha voz. Basta conseguir um momento de reflexão e o objetivo foi alcançado . As pessoas não têm noção do Poder do Rap.

H2T – É impossível ouvir o álbum sem que este, num momento ou outro, nos leve a viajar por um feeling old-school. Foi algo intencional? São essas as tuas grandes inspirações?
Kadypslon – Foi intencional sim, quis oferecer um pouco das vibes que trago desde jovem. No final das contas , estou a fazer música para mim, mas sempre na esperança de ser aceite pelo público .

“Já senti a existência desta Cultura mesmo Raw, mas não foi com Emcees, foi com Bboys”

H2T – O tema “Cultura” é quase como um hino ao Hip-Hop, explicando o que é e qual a razão de ser deste movimento. No entanto, também neste tema, dizes encarar este som como uma “Fantasia”. Alguma vez sentiste existir esta Cultura tal qual a referes? Achas possível?
Kadypslon – Passei alguns anos a estudar e tentar entender o que realmente Hip Hop significa. Quando conheci a Cultura, ela já estava a descarrilar. O seu sucesso também foi a sua destruição, com a presença das grandes corporações a injetar milhões no Hip Hop, acabou por corromper grande parte de nós, que até é compreensível, estamos a falar de pessoas que nunca tiveram NADA. Posso dizer que sim, já senti a existência desta Cultura mesmo Raw, mas não foi com Emcees, foi com Bboys; e é possível se estender pelas outras vertentes mas precisa de ser pregado, foi o que fiz.

“Infelizmente, o Rap é a vertente que menos representa Hip Hop.”

H2T – Na sequência deste tema sei que, apesar da distância, te vais tentando manter a par do que se passa no panorama Hip-Hop Nacional. Tens alguma mensagem que gostasses de deixar aos vários intervenientes e vertentes da Cultura?
Kadypslon – Vejo muita arrogância de quem conseguiu e muito choro de quem tenta, isso cria uma separação indesejável no movimento, falta União. Na vida, nem tudo é movido por dinheiro e ás vezes é na simplicidade que encontramos o que mais nos preenche. Os artistas modernos precisam de entender que Felicidade é o que nós fazemos e com quem fazemos no dia a dia , isso é que é Hip Hop e é isso que deve ser falado. Inspirem-me, ajudem-me a educar os meus filhos. Infelizmente, o Rap é a vertente que menos representa Hip Hop.

H2T – Para finalizar, deixa-nos com uma ideia do que podemos esperar de Kadypslon num futuro próximo? Há projectos em mente?
Kadypslon – Passo a vida a arquitetar novos projetos. Já estou na fase terminal do “Sem Fronteiras Vol.2” , vai sair uma Mixtape (solo) nos meados de 2018. Estou a investir em mais vídeos , acho que as pessoas já me ouviram, agora precisam de me ver.

Álbum “Refúgio” em formato físico – disponível nas lojas Fnac ou por contacto directo com o artista através do email kadypslon@gmail.com ou pela sua página de facebook.

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