Entrevista por Francisco Ribeiro
Fotografias por André Sanano

O carismático GriLocks voltou a falar com o H2Tuga e traz surpresas na sua bagagem. O MC de Miratejo (berço do hip-hop português),  já soma 3 discos e tem em vista um novo a sair este ano. Desde a sua primeira aparição em 2012 até à mixtape “Carisma” de 2015, último projeto do artista, GriLocks tem moldado a sua rota na cultura. Uma entrevista a não perder de uma das promessas da nova escola.

H2T – Falando um pouco do teu passado. Desde o teu primeiro trabalho em 2012 o que sentes que mais tens desenvolvido enquanto artista e pessoa neste teu percurso?
GriLocks – Não faço diferenciação da minha pessoa e do artista, não acho que exista outro eu, simplesmente, sou alguém com um lado artístico, não uso filtros quando escrevo, faço Hip-Hop por desabafo. Portanto, para mim, esse desenvolvimento é uma simbiose. Cresci e mudei bastante enquanto pessoa, e isso, obviamente influenciou o meu lado artístico, e em consequência, a minha maneira de estar, e de ver as coisas. Claro que, tive em atenção algumas áreas como a dicção, a dinâmica dos sons como os refrões ou outras melodias, ou até mesmo descomplicar a minha escrita. Mas estou mais focado em evoluir enquanto pessoa, o resto, acontece espontaneamente. Quero cada vez mais “beber de várias fontes”, não me prender a etnocentrismos, nem quero ser colocado num repartimento com um rótulo.

H2T –  “Fyah na Babilónia”, trabalho que te introduziu nesta cultura deixou de estar disponível online. Tens interesse em falar um pouco sobre isso? Há alguma razão?
GriLocks – 
Boa pergunta! Por incrível que pareça, mesmo sendo o meu primeiro trabalho e com pouca qualidade, é o projeto pelo qual mais pessoas me abordam e falam com algum apreço. Sinceramente, apesar de estimar cada palavra que ali escrevi, musicalmente estava muito fraco, foi gravado em 4 ou 5 dias, com o meu amigo Ney (Urbanvibsz). Não sei porquê, houve uma altura que não gostei de ter a Mixtape disponível online, e então, retirei-a. Um dia, quem sabe, volto a colocá-la disponível.

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H2T – Numa das conversas que tiveste com o h2tuga no passado, ainda sobre o “Córtex cerebral” de 2014, mencionaste que tinha sido um projeto “essencialmente de introspeção”. Olhando para esse tempo, consideras que os teus valores como pessoa se mantém?
GriLocks – 
Perdi uns, ganhei outros e melhorei alguns. Gosto de estar em constante evolução, não tenho qualquer problema em mudar em algumas ideias e matar certos ideais. Mas sim, a maioria mantenho.

H2T – “Carisma”, último trabalho lançado por ti, abordou a tua relação com o mundo, natureza e com o hip-hop. De forma geral, qual foi o impacto que achas que causaste aos teus ouvintes e qual as reações que recebeste?
GriLocks – 
O impacto que eu pretendia e fico feliz por isso. O que eu falo, e sempre falei, é que existe um equilíbrio em que é possível vivermos, os media e a sociedade parece que só nos falam em duas “caixas”, o ser uma pessoa triste ou uma pessoa feliz, e eu acho que podemos simplesmente ser pessoas felizes a quem acontecem coisas tristes às vezes. Utopia, ou não, para mim há sempre um lado positivo em tudo e uma maneira de crescer com isso. E nesse aspecto, recebi imensas mensagens privadas a partilhar do mesmo pensamento que eu, e a agradecerem determinadas “dicas”. Não sou nenhum génio ou sábio, mas acho que transmito as coisas numa perspectiva agradável para todas as personalidades e géneros.

H2T – Tivemos já o privilégio de em variadas iniciativas do H2T poder contar com o teu apoio e presença. Entre outras, marcaste presença nos “Encontros de Cultura Hip Hop” que tiveram lugar no bairro alto, fruto de várias parcerias. Conta-nos como foi para ti essa experiência e qual é, no teu entender, a importância de iniciativas desse género?
GriLocks –
 Foi uma experiência incrível e um ambiente espetacular. Senti-me completamente no South Bronx. Enquanto cantava, em simultâneo, haviam crews de B-Boys e B-Girls a partirem, Dj’s e Produtores a produzir ao vivo e ainda writers a grafitar. Acho que teve pouca aderência, e que fazem imensa falta eventos destes, actualmente, parece que as vertentes vivem às vezes numa relação separada, e todas elas valorizam de igual forma a cultura Hip-Hop.

H2T – No ano passado pisaste o “Ser Humano”, um dos eventos mais nobres e prestigiados da cultura. Qual é a sensação de pisar esse palco? Notaste alguma diferença no teu público após dessa experiência?
GriLocks – Sim, alcancei muito mais visibilidade após essa noite. Até aos dias de hoje, foi e é, o meu concerto favorito. Não tenho palavras para o que senti e vivi naquela noite histórica. Não só pelo Hip-Hop, mas pelo motivo e conceito do concerto, foi extremamente gratificante. Sabia que tinha muitos ouvintes no Porto, mas nunca tinha lá actuado, e ainda tive a missão de ser o primeiro a cantar e abrir a noite. Não precisei mais do que o primeiro verso para me sentir em casa, o público do norte é mágico. Estou completamente agradecido ao Paulo Pinto e ao FUSE pela oportunidade, e a todos os artistas e público que encheram aquele mítico HardClub.

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H2T – Qual foi a sensação de seres convidado pelo Fuse a participar num tema histórico (12 Magnificos) que, para fazer um videoclip, deu origem a mais uma calorosa noite no palco do hardclub?
GriLocks- Foi um prazer e uma honra a participação. Sim, como íamos deslocar-nos todos ao Porto para gravar o vídeo da música, juntamos o útil ao agradável e deu-se mais uma noite memorável. Aconselho vivamente a ouvirem o álbum com tempo e atenção, está uma obra de arte.

H2T – De momento encontras-te a trabalhar em algum projeto?
GriLocks – 
Estou a trabalhar no meu primeiro álbum, inteiramente produzido, misturado e masterizado pelo Khapo na Hood Groove, dá-se pelo nome de “Bafos & Desabafos”.

H2T – Pretendes que seja lançado ainda neste ano de 2017?
GriLocks – 
Estou a fazer por isso, apesar de andar muito ocupado a nível pessoal e profissional, estou a contar que saia ainda num futuro próximo.

H2T – Os três últimos trabalhos tiveram temáticas diferentes entre si. Queres que esse paradigma continue, inovando, mais uma vez, no conteúdo que irás apresentar?
GriLocks – 
Honestamente, não estou a pensar muito nisso e estou a deixar as coisas fluírem. Não tenho pensado em Rap, mas em música. Vai ter sonoridades bem diferentes do que fiz até agora, abordo temas que nunca tinha explorado, e como o nome indica, são desabafos. Por agora não penso que seja um álbum conceptual, enfio-me no estúdio, e deixo as coisas acontecerem.

H2T – Podes indicar algum artista com quem tencionas colaborar neste trabalho?
GriLocks – 
O Khapo é certo que entra, assim como Bibi Ross, uma amiga minha e uma nova artista, que está a dar uma certa sensibilidade ao projecto, com a voz dela. De resto, não tenho ainda participações gravadas por isso não quero adiantar nomes, mas se tudo correr como estou a idealizar, vou ter algumas curiosidades.

H2T – Em jeito de mensagem final e agarrando nas tuas palavras “Mesmo que não esteja a viver disto\Estou só feliz por fazer isto”. Algum conselho ou motivação a dar para que outros artistas possam encontrar esta mesma alegria?
GriLocks –
 Que façam aquilo que amam e que amem aquilo que vivem. Sinceramente, quanto mais cresço, mais me estou a borrifar para a opinião dos outros, acho que ainda há muita postura de egos, intelectuais iletrados e opiniões públicas absurdas na nossa sociedade portuguesa. Faças o que fizeres, vais ter sempre pessoas que gostam, outras que nem por isso. Não faças por quem se importa, mas sim, porque és importante.

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