Entrevista por Sofia Paralta Camilo
fotografia de topo de Inês Sousa Vieira

PESSOAS: O ÁLBUM SEM FILTROS DE GENES

Quer primeiro dar-se a conhecer como Luís, e só depois como Genes. Quer primeiro que o conheçam a ele e àquilo que é, para depois conhecerem aquilo que faz. Quer fazer-se valer pelo seu nome próprio, trabalhando sozinho, sem depender de ninguém. Quer fazer render os seus esforços, sangue e suor e ver tudo isso resultar em coisas em grande. Na verdade, Luís (ou Genes) não gosta de pensar pequeno.

Não quer que lhe chamem “rapper”. Não quer estar exclusivamente associado ao panorama generalizado do hip hop tuga. Não quer fechar-se na caixa de um só género musical. Quer ousar, arriscar. Quer experimentar. Quer transcender barreiras diversas e, ao fazer aquilo que mais gosta, provar que nada é impossível.

Contra todas as probabilidades, hoje está a fazer precisamente isso: o impossível – ou talvez algo que apenas aparentava sê-lo, quando na realidade estava só à espera do momento certo para se realizar. Contra todas as probabilidades, o rapaz que parecia andar “adormecido”, mas que todos os dias trabalhava horas a fio numa hamburgueria para conseguir trazer à vida uma ideia chamada Indieota, conseguiu mesmo fazê-lo. E contra todas as probabilidades, esse mesmo rapaz deu a uma cidade consideravelmente pequena o seu primeiro festival de música indie. Contra todas as probabilidades, foi o Luís que deu ao Montijo o Indieota.

Hoje, dá-se ao público numa estreia nada tímida com o álbum Pessoas: um retrato conceptual daqueles que lhe fizeram bem, daqueles que lhe fizeram mal e de todas as pessoas que, de uma forma única, ora mais “incisiva” ora mais “fugaz”, forjaram a aço a pessoa que é hoje.

Pessoas mostra-nos Genes, o artista, e em simultâneo Luís, o ser humano, no seu todo exposto a nu e cru, sem filtros nem tabus que pudessem “poluir” (se é que a expressão se adequa) uma abordagem tão genuína à experiência ganha em eventos fortuitos da vida e às mais puras das emoções humanas: do amor ao ódio, da felicidade à melancolia.

Tudo isto chega a nós nas palavras de uma voz franca que fala sem papas na língua, acompanhada por beats absolutamente magnetizantes que, no seu todo, fazem a coisa resultar. Nós podemos até nem saber muito bem porquê, mas resultam. Seguindo por esta linha, é seguro afirmar que Pessoas é uma daquelas gemas escondidas que primeiro se estranham mas depois se entranham – e assim que se entranham, vêm para ficar.

A ideia de Genes é transcender barreiras e convenções no que diz respeito tanto à ética como à produção massificada de artistas que tantas vezes se transforma num status quo saturante, em tudo é igual a tudo. Por isso, prima pela diferença – o que talvez esteja directamente relacionado com o facto de esta “gema” ter, até à data, atingido a sua difusão essencialmente no universo mais underground. Porque o mais natural é mesmo, à partida, estranhar-se a diferença. Mesmo quando, à partida, essa é uma diferença boa.

Capa Pessoas
É verdade: Pessoas é diferente. Mas vale a pena “experimentá-lo”, não fosse o princípio da experimentação o mote fundamental da música que Genes mais gosta de fazer. Para começar, conta com uma produção exímia, fruto do trabalho de múltiplos artistas completamente diferentes, que acaba por ser um dos trunfos mais surpreendentes de um álbum que merece muito ser ouvido. Afinal, é precisamente quando a produção, a melodia, a letra, o beat e a mensagem geral se alinham que nasce algo assim: o eclodir de um produto novo, musicalmente fresco, fruto de influências sonoras mistas e de uma mente que ainda tem muito por desvendar.

Estivemos numa esplanada a conversar com o Luís sobre música, sobre o seu álbum, sobre o Indieota e também sobre um ou outro filme do Tarantino, numa entrevista que, também ela, desvendou muita coisa:

H2T: A gravação que abre o teu álbum possui uma mensagem muito forte. Fala de todos aqueles que criticaram o teu trabalho, que te deram feedback desmotivador, que foram desonestos contigo, dos que não evoluem e portanto vêem com maus olhos a tua evolução e dos interesses que se foram gerando em teu redor à medida que foste crescendo, musicalmente e em termos de mediatismo.
É uma mensagem pessoal ou falas na generalidade – isto é, tendo em conta também o testemunho de outros artistas?
GENES: Eu acho que tudo aquilo que entrou neste disco não foi fruto do acaso. Como é que eu hei-de explicar? Eu até falei com o Miguel Caixeiro (Mike El Nite) acerca dessa mesma gravação, já lhe tinha mostrado algumas demos antes e também lhe mostrei essa, na altura gravada por mim. Ao que ele me disse: “Essa cena é fixe, mas tem de ser bem efectuada. Tu tens de executar isso bem, senão vais estar só a disparar tiros à toa”. Então o que é que eu decidi fazer…decidi pegar em factos e acontecimentos vividos em primeira mão, em muitas pessoas… Sei lá, eu há dois anos lancei uma faixa que foi muito mal recebida aqui na cidade, chamada Eu e os meus tropas (eu ironicamente ainda toco essa canção ao vivo, por acaso). Contudo, chegou a um ponto em que aquilo já era demais, então decidi apagá-la da “webosfera”. É um dos acontecimentos que me ocorre.
Então sim, eu fui pegando em várias coisas que me foram acontecendo e em várias pessoas que me foram apontando o dedo. No início eu até só queria fazer música para provar às pessoas que conseguia mesmo fazê-lo e que conseguia mesmo chegar a algum lado com aquilo que faço. Depois, comecei genuinamente a divertir-me. Essa gravação do Prefácio, por exemplo, foi mais uma brincadeira que outra coisa: um pouco para “quebrar” o ritmo das restantes canções que compõem o álbum e que eu achei que estavam um bocado sérias. Decidi pegar numa canção, atenuar um bocado o texto e pôr o Mean Will ao microfone para não ser logo eu a falar directamente. O texto era, essencialmente, dirigido a quem a carapuça servisse. Deve ter servido a algumas pessoas, não sei. Ou se calhar não…

H2T: Há alguma razão em particular para ter sido o Mean Will a falar na gravação?
GENES: Epá, porque o Mean Will é um bacano, mesmo…Foi afinidade. O Mean Will foi sempre aquela pessoa que esteve ao meu lado no microfone, por isso quis que fosse ele a trazer aquele texto à vida. Foi ele que me ajudou quando estava em baixo. Supostamente, era para eu ter gravado o disco na casa da Ana Miró (Sequin), que é uma miúda que já faz música há bastante tempo, sobretudo numa onda mais eletrónica, e que também tem vindo a produzir umas coisas fixes. Fazia sentido gravar na casa dela, até porque eu queria que ela fizesse os backing vocals de algumas canções. Mas foi o Mean Will que se se chegou a mim e disse logo: “Podes gravar o álbum no meu quarto”. E assim foi. Aliás, eu acho que vou passar a gravar tudo o que tenho a gravar no quarto dele.
Eu já estava com pouca auto-estima relativamente a estas canções, até porque já tinha escrito algumas delas há imenso tempo, estavam arrumadas desde Novembro do ano passado a ganhar pó. Eu mostrei-as à Ana e ela deu-me um feedback algo reticente, não sabia se iriam resultar, e eu pensei: “Pronto, estas canções são uma merda”. E depois o Mean Will é que chegou com uma postura de “Não boy, tu tens aqui material, vamos fazer essa cena acontecer!”. E fizemos a cena acontecer.

H2T: Mais perto do fim dessa mesma gravação, chateias-te com o Mean Will por ter partido o vaso da tua mãe. Isso teve uma razão de ser ou foi apenas uma brincadeira?
GENES: Isso aconteceu mesmo. (risos) Aconteceu, na realidade, porque o Mean Will é uma pessoa muito efusiva, ele tem uma personalidade muito engraçada. Por acaso, estava ali ao pé uma coisa qualquer (nem era um vaso, era outra coisa de vidro) e ele estava tão agarrado ao texto que se soltou e partiu aquilo do nada. Eu achei aquilo incrível e ele pediu-me desculpas. Só que não podíamos estar a gravar muitas mais vezes, senão ele tinha de partir muitos mais objectos ao acaso. Então criámos um som sintético de um vaso a partir e foi isso que utilizámos. Mas sim, esse momento aconteceu mesmo. (risos) Toda a gente gosta do Mean Will. Ele pode partir as cenas que quiser lá em casa.

H2T: Afirmas que o teu álbum Pessoas é sobre “pessoas que passaram na minha vida, umas de forma mais incisiva e outras de forma mais fugaz, mas acima de tudo é uma celebração da real importância que essas pessoas tiveram naquela que sou hoje”. Que tipo de pessoas é que podemos ouvir retratadas no teu álbum?
GENES: Se lerem a apresentação do álbum até ao fim, encontrarão lá uma nota final em que digo que uma das pessoas retratadas até podes ser tu, o interessante é que tu nunca vais saber. E é isso que lhe dá piada. Se calhar também parte um pouco da caracterização do álbum. Pessoalmente, acho que a piada do disco é precisamente o mistério. Eu nunca menciono a pessoa de que estou a falar directamente, até porque se outras pessoas ouvirem as canções, elas vão, por sua vez, rever nelas pessoas que passaram na sua própria vida. Pode ser uma ex, pode ser uma irmã, pode ser qualquer pessoa. São pessoas que vão passando. Como as ex-namoradas, vá…(risos) são sempre um tema fixe para escrever canções.
Por outro lado, o meu interesse é também que essas pessoas – as que eu retrato no álbum – percebam que há uma grande probabilidade de a canção ser sobre elas. Na verdade, quando lancei o álbum, houve até pessoas que me mandaram mensagem – precisamente essas pessoas de que eu falo nas canções – a reagirem negativamente àquilo que disse, por lhes chamar “cabras” ou isto ou aquilo. Eu nunca sei ao certo o que responder a estas coisas. A maior parte delas muito provavelmente já nem faz parte da minha vida (a não ser duas).
A June Nash eu posso dizer quem é. Hoje, é uma pessoa importante. É uma miúda muito espiritual que eu conheci num bar na Graça. Ela começou a falar-me de leituras astrais e coisas do género e eu descobri que tinha uma história de vida engraçada, por acaso. Chama-se (ou chamava-se) Joana – o nome verdadeiro dela. Ela gosta de artes e de ser artista e tudo mais, gosta de pintar e é uma pessoa dotada, também. Basicamente, os pais dela não apoiavam aquilo que ela fazia, então ela sentia que os pais não sabiam aquilo que ela era, pelo que decidiu sair de casa e mudar de nome. E mudou de nome para “June Nash” – eu vi, ela mostrou-me o cartão de cidadão e estava lá: June Nash. É daquelas coisas que tu ouves e ficas: “Wow. Isto aconteceu mesmo?”. Aquela rapariga era mesmo a sério. Então começámos a falar mais, depois ela começou a “abrigar-me” também, chegou a acontecer eu ir a Lisboa e ficar em casa dela e coisas do género, e então eu comecei a alimentar-me muito daquilo que ela tinha para me dizer.

Genes3fotografia de Vera Marmelo

H2T: Sobre a tua infância numa casa de mulheres onde brincavam ao 90210 Beverly Hills, dizes: “Para me fazer de mulher e poder ser aceite na cidade simplesmente punha uns saltos altos da minha mãe e deixava que elas me maquilhassem, o mais engraçado é que a dada altura até me comecei a habituar um bocado…Não a vestir-me como uma mulher mas sim a dar-me com as minhas irmãs!”. Falando do teu álbum em termos de estética, é essa experiência da tua infância que procuras transportar para a capa?
GENES: Totalmente. A Vera (Marmelo), que tem um espírito assim meio “selvagem”, quando estava a tirar-me umas fotos na casa-de-banho, chegou-se a mim e disse-me: “Puto, agora é aquela parte em que eu te ponho uma maquilhagem mesmo muito hardcore e tu vais mesmo ter de pensar duas vezes se queres fazer isto ou não. Tu vais ter mesmo de pensar naquilo que as pessoas vão pensar sobre isto”. Eu olhei-me ao espelho, depois de ela me pôr uma maquilhagem mesmo muito estranha, e perguntei: “What the fuck? O que é isto?”. E aí ela disse-me novamente: “Tu vais ter de pensar bem nisto, porque este é o momento que vai fazer toda a diferença na imagem que tu vais dar”. E eu respondi-lhe que era aquilo que eu queria, que era precisamente aquela a imagem que eu queria dar. Essencialmente porque não é uma estética vazia, eu não iria vestir-me de mulher só porque sim. Eu sei que há muitas pessoas, como por exemplo o Rodrigo Vaiapraia, que é super feminista, que está muito associado ao queer pop e que é muito provavelmente o único a fazer esse tipo de coisa cá em Portugal, que funde muito bem a estética com a sonoridade dele. O tipo de ideias que ele defende são coisas que o tocam mesmo. Face a isso, eu nunca poderia vestir-me de mulher assim à toa e dar essa imagem só porque sim. Tal como, neste caso, eu sinto que não poderia fazer um disco só porque sim.
Um disco é uma coisa séria e eu preciso de uma temática, preciso de, pelo menos, criar um conceito em que todas as canções se interligam entre si. Eu queria fazer um disco conceptual e comecei a aperceber-me que estava a escrever sobre um elo comum, que estava a pôr tudo na mesma linha e quando pensei na capa pensei também nisso.
A capa não podia ser uma coisa inócua, tinha de ser uma coisa que me marcasse (até porque é o meu primeiro disco) e então pensei em fazer a associação a essa história, que é uma coisa que me marcou muito. Assim como o contacto com as pessoas que passaram na minha vida, com a experiência, e a relação de tudo isso com a evolução, com o crescimento, com a comparação entre a pessoa que era antes e a pessoa que sou hoje, sempre influenciado por aquilo que vivo e por aqueles que me rodeiam. De certa forma até é estranho, porque hoje eu olho para mim e sou muito diferente. Nesse aspecto, foi bom colocar na capa esse vislumbre da minha infância. Sou eu a dar, não diria talvez a “parte fraca”, mas sim a minha parte mais frágil, mais feminina, por assim dizer. Aquele lado mais sensível, mas que não tem medo de se expor. Eu quando lancei o álbum até publiquei uma bio demasiado estúpida em que dizia algo como: “Eu comi mais gajas vestido de mulher do que tu vestido de homem”, mas depois pensei para mim: “Eu não preciso de fazer isto. A minha masculinidade está completamente intacta. É o que é”.

H2T: “Eu faço o abecedário, faço o ABC; mas eu nunca vou parar no Z, Z, Z, Z”. É assim que abres a track Notívaga: o que é que nos queres dizer nessa faixa?
GENES: A Notívaga por acaso não é sobre outra pessoa, é mesmo sobre mim. Sobre o facto de eu passar horas acordado, porque à noite parece que ganhas outro tipo de inspiração. Consegues fazer as coisas muito melhor, a tua produtividade aumenta. Nessas alturas, não sentes que o teu cérebro está isolado de tudo? Estás mais concentrado. Na Notívaga eu falo sobre todas as experiências que tenho enquanto os outros dormem. Houve uma altura em que eu me estava a sentir verdadeiramente em baixo por não estar a lançar nada de momento, porque as canções que já tinha lançado anteriormente estavam mal gravadas e por uma data de razões. Senti que estava toda a gente a cagar-se para mim. Eu estava a escrever essa canção mesmo com aquele sentimento de querer acordar as pessoas, de lhes querer mostrar que eu não estava a dormir. As pessoas podiam pensar que eu estava perdido. Eu tinha acabado a escola, estive a trabalhar no Big Bob’s durante uns tempos, mas depois deixei de trabalhar. Na altura eu até estava a tentar organizar-me para trazer à vida o meu festival, o Indieota – na verdade, eu até trabalhei no Big Bob’s precisamente para juntar dinheiro para isso. Mas eu era um puto que não estava a fazer nada da vida naquele momento, por assim dizer. Na altura eu nem estava a actuar muito, estava parado. E é nessas fases que tu começas verdadeiramente a sentir a pressão, começas a ver as pessoas à tua volta, os teus peers, a avançar e a fazer montes de coisas e tu estás parado. Eu vi o Primeira Dama super entusiasmado com o disco dele e ele veio-me perguntar se eu tinha lançado alguma coisa nova, ao que eu respondi que não, que não tinha nada de novo. Ele começou a dar concertos aqui e ali, as coisas estavam a correr-lhe mesmo bem. Quando eu falo de peers não é toda a gente, por exemplo o Miguel Caixeiro (Mike El Nite) não é um peer, ele é mais um mentor. Eu estou completamente fora da liga dele. Não é que isto seja uma coisa de “ligas”, mas ele tem a cena dele e eu tenho a minha, ele está onde está e eu estou cá em baixo. Eu ainda não sou ninguém. Eu fui trabalhando no espírito de precisar genuinamente de fazer algo que acordasse as pessoas, para que percebessem que mesmo durante este tempo em que eu não estava a apresentar coisas novas, estava a trabalhar e estava a fazer alguma coisa. Se calhar até era isso que me reconfortava, o facto de no fundo eu saber que um dia as pessoas iriam saber disso. A Notívaga fala sobre isso, também. Eu cheguei a lançar um EP em Outubro e a dar uns quantos concertos com umas canções bem merdosas: ainda consegui tocar no Musicbox e em algumas casas independentes. Até consegui levar essas canções ao Barreiro Rocks. Mas chegou mesmo a um ponto em que eu parei e apercebi-me que já não tinha mais concertos agendados. E pensei: “E agora?”. Essas canções caíram, morreram. Foram um flop total. A Notívaga é mesmo muito sobre isso, sobre o facto de eu tentar constantemente relembrar às pessoas que estou acordado, que estou a observar tudo. Pensam que estou a dormir, mas eu estou muito acordado, estou a observar toda a gente. Eu vou vendo as pessoas, vou observando tudo. Por acaso, quando eu lancei essa canção, recebi uma mensagem do Miguel (Caixeiro) que foi mesmo do coração. Ele disse-me: “Então puto?” e eu disse: “Então, o que é que tens para me dizer? What u feelin’?”. Ao que ele respondeu: “A masterização está mesmo no ponto”. E eu fiquei como que: “Ok, ok, ok, ok. It’s my birthday. We’re gonna party”. Foi fixe ouvir isso dele.

H2T: Na faixa Estrangeiras, falas sem pudores quando dizes que “foram três alemãs numa noite”. Pondo de lado eventuais tabus, caso estejas à vontade para falar abertamente acerca disso, falas em primeira mão? O que está a ser falado nesta música é uma noite que se descontrolou ou é algo completamente diferente?
GENES: Foi uma orgia. Essa noite por acaso foi muito engraçada. Eu tinha estado a actuar no Copenhagen. Essa noite foi muito fixe, estávamos a curtir, blá blá blá, na altura eu também andava a beber bastante…e então depois perguntámo-nos para onde íamos e fomos para o Estrela, na Graça. O Estrela é o sítio onde a malta da música indie convive e vai beber umas cervejas. Aquela noite foi louca. Era uma quinta-feira, e é nas quintas-feiras que eles costumam ter por lá os programas deles, com jantares vegan e concertos e assim. Eu por acaso até vou actuar lá dia 14 de Setembro. E – revelo-te em exclusivo – vou passar na Super Bock Super Rock FM, para promover umas canções. Mas (voltando ao assunto) nessa noite já tínhamos saído do Copenhagen quando encontrámos essas alemãs e mais duas raparigas da Croácia (acho eu). Eu estava com um amigo, também estava lá o Luís Barros (que toca com o Alek Rein, que tem uma onda mais de rock psicadélico). E então fomos meter-nos com elas, fomos falar inglês com elas. Eu estava de roda de uma delas, estive para aí duas horas a falar com ela. Lá pelas quatro da manhã, after party. E fomos para onde? Fomos para a casa do Barros. Eu já estava muito bêbedo para conduzir (quando digo conduzir, refiro-me à parte sexual). O Barros estava com duas miúdas e eu estava caído no colo de uma alemã e depois ele convidou-nos para irmos para o quarto (descansar mesmo, porque eu estava com sono) e depois acabou por acontecer. Essa história foi mesmo muito engraçada, até porque passaram uns dias e passaram umas semanas e eu não me lembrava de nada e depois é que o Barros me lembrou: “Nós comemos três gajas nessa noite. Isso dava uma grande canção”. Pois dava, pensei eu. Então comecei simplesmente a escrever alguns versos e foi surgindo. Foi uma canção que eu escrevi em para aí dez minutos, essa canção nem era para aparecer no álbum…mas depois, como encontrei o beat certo (e nem fui eu que a produzi) para tornar a coisa mais juicy, algo para ser ouvido no Verão por exemplo, decidi investir nela para chegar ao produto final. Foi o que foi. Eu também não iria cuspir esses versos sem o beat certo para o fazer, contudo a canção ficou boa em termos de produção, por isso apostei nela.

H2T: E custou-te muito a encontrares o beat certo para a canção em causa? Ou foi algo espontâneo?
GENES: Nem por isso. Foi o Acates quem me mostrou esse beat, na altura. Ele na verdade tem-me chateado imenso ultimamente, ele anda a produzir non stop, tanto que eu até usei um beat dele na segunda faixa do Pessoas. É engraçado porque ele manda-me inúmeros beats, já chegou até a propor que fizesse uma mixtape só com beats dele. Às vezes nem foi ele a produzir as coisas que me mostra, mas está constantemente a partilhar música comigo. O beat para esta canção, assim como a canção em si, eram curtos…e isso era precisamente o que eu queria. Tem um pouco a ver com o meu gosto por incutir um certo cunho punk na música, onde as canções são curtas, simples mas extremamente incisivas. A minha música tem de ter essas propriedades sónicas, que se prendem com o apelo à pessoa, para além dos versos. A pessoa, ao ouvir aquilo, tem de conseguir sentir, gostar, ou meramente tem de lhe soar familiar. Tem de ter a sonoridade certa. E é sempre fixe quando és tu a produzir a cena de raiz, como aconteceu com a Ranhosas ou com a Inspiradoras. Mas não deixa de ser incrível quando já tens a canção escrita e depois surge uma melodia que encaixa na perfeição ali.

H2T: Em Pessoinhas, Oferecidas e Inspiradoras, transportas-nos para uma dimensão muito mais pessoal, em que descreves de uma forma bastante franca acontecimentos que te marcaram emocionalmente – entre os quais algo que me parece ter sido uma experiência de amor mais intensa que terá tido uma ruptura algo abrupta. O que me tens a dizer acerca disso?
GENES: O álbum está dividido em dois lados, por assim dizer. Não é homogéneo nem uniforme. O primeiro lado é mais reflexivo. O segundo lado, esse, já mostra uma faceta mais frágil, mais vulnerável. É aí que eu começo verdadeiramente a falar das pessoas que mais me marcaram e de assuntos que me vêm mesmo do peito. Eu escolhi falar de duas pessoas que odeio e de uma pessoa que tem uma grande importância para mim. Eu não fiz um scroll aleatório para escolher sobre quem escrever. Antes de escrever as canções, eu já sabia sobre quem ia escrever. O Pessoinhas é sobre alguém: uma pessoa que eu não gosto muito (e à qual se calhar também dirijo, em parte, o Prefácio). O Oferecidas também é sobre alguém que eu não gosto: uma oferecida. Por fim, o Inspiradoras é para uma pessoa que admiro muito e que aqueles que acompanharam à lupa o processo de composição e produção deste álbum saberão logo à partida quem é. Na verdade, é sobre o meu primo, o Alex D’Alva Teixeira (ele tem uma banda chamada D’Alva). Ele é importante para mim por vários motivos. Eu antes só vivia este universo indie através da televisão e da rádio e a dada altura eu deixei de ouvir rádio e de ver televisão e olhei para o Alex e foi ele quem me disse: “Não, isto é real. Isto é mesmo possível. É possível tu passares do sofá para a rádio e para a televisão. Estas coisas são mesmo possíveis”. Eu vi o Alex a alcançar tanta coisa sozinho, por ele. Isso para mim foi tudo. Eu, sem o Alex, não estaria aqui hoje. Além disso, uma coisa boa que eu sempre vi nele e que me fez ter uma grande vontade de fazer isto acontecer foi a capacidade para não viver na sombra de ninguém. Eu próprio não quero viver na sombra do Alex. O Alex tem o nome dele e eu tive de ganhar o meu. É nesse sentido que, se calhar, o Indieota foi tão importante. Isto fez tudo parte de um plano diabólico (risos) que eu tive de executar de raiz. Eu precisava que as pessoas conhecessem, primeiro, o Luís e só depois o Genes. As pessoas nunca iriam reconhecer o Genes do Eu e os meus tropas nem de nenhuma dessas tretas que eu fiz a gozar com o Gilson. Até podiam dizer: “Ah, ele é o Luís D’Alva Teixeira, primo do Alex D’Alva Teixeira” mas iam logo perguntar: “Mas o que é que o puto faz? Quem é ele?”. Well…fuck you, eu organizei um festival todo sozinho.

Indieota

H2T: Falando do Indieota: de uma forma auto-didacta, conseguiste concretizar algo que poderia parecer pouco provável ou até “impossível” no meio de uma cidade consideravelmente pequena e deste ao Montijo o seu primeiro festival indie – aliás, o seu primeiro festival de música, no geral. É seguro afirmar que foi uma ideia com bastante potencial que acabou por render os seus frutos. Até trouxeste bandas que estão a crescer cada vez mais no universo underground, como os PISTA, por exemplo. A pergunta é, então: como é que da teoria passaste à prática?
GENES: Os PISTA foram um grande gig, sem dúvida. Ainda ontem estive a ver um ensaio deles! Eles são tipo os meus “maninhos mais velhos”. Eu vou contar-te uma história inédita que se passou no Super Bock Super Rock do ano passado. Eu pedi folga ao meu patrão do Big Bob’s, queria ir lá ver uns amigos, iam tocar os Capitão Fausto (que eu já tinha entrevistado para um blog estúpido, e de quem acabei por ficar amigo) e iam tocar os PISTA. Mas eu, para além de ir ver os concertos deles, sabia que a única maneira que eu tinha de ganhar visibilidade na rádio Antena 3 era chegar lá, ganhar tomates e apresentar-lhes o meu projecto. E foi isso que fiz, acabei por ver a redacção inteira da Antena 3 ali e apresentei-me a todos. Nem mencionei o nome do Alex, eu nunca menciono o nome do Alex. Simplesmente cheguei lá, com humildade, e depois a miúda das manhãs deu-me o seu e-mail, para que lhe mandasse o que lhe tinha a mandar para que ela reencaminhasse tudo para a pessoa certa. Passada uma semana depois de ter enviado o e-mail, recebo um outro e-mail do Luís Oliveira a dizer algo como: “Luís, nós gostamos do teu espírito DIY, vamos fazer isto acontecer e vamos dar-te um pequeno apoio”. A cena é que para eles é um apoio pequeno mas para mim foi um apoio gigantesco.

H2T: Com o Indieota, trouxeste ao Montijo inúmeras bandas de várias partes do país, com estilos musicais completamente distintos e, cada uma delas, com um universo muito próprio. Como é que conseguiste fazer isso: contactar todas essas bandas, definir honorários, trazê-las até cá…? E por que é que optaste por essas bandas em particular?
GENES: Foi simples. Eu tinha duas amigas que juntas formavam um duo de garage punk chamado Clementine, que tem umas excelentes malhas e tem também um pouco daquela cena de riot girls. Elas são muito boas e, originalmente, a minha ideia era trazê-las até cá por 100 paus, dinheiro que consegui arranjar durante o período em que estive a trabalhar no Big Bob’s. Depois pensei para comigo: “Não tem muita piada estar só a trazer uma pessoa/grupo para uma noite e estar a pagar-lhes 100 euros, ou seja, mais vale cobrar entradas a estes cabrões”. Cheguei à conclusão de que se calhar devia trazer mais amigos meus. Com os concertos que vou dando acabo por fazer amigos aqui e ali, como é o caso dos PISTA, e à medida que fui falando com eles todos me foram dizendo “Tocar aí por 100 paus? Claro puto, é para ti, nós vamos”. Os The Sunflowers vieram do Porto, na altura ainda nem tinham lançado o seu disco e aceitaram na boa, com aquele sotaque. Eles são um casal muito engraçado, a Carolina toca bateria e o Carlos toca guitarra. Depois eles foram trazendo os seus amigos atrás e dei por mim com muito mais bandas envolvidas do que o número que tinha designado inicialmente: os 800 Gondomar, os Fugly… O resultado foi que trouxe cá pessoal do Porto, pessoal de Lisboa, pessoal do Barreiro, pessoal de todo o lado. Ainda era para ter uma banda que tocou recentemente no RockInRio e estava a ser difícil convencê-los a virem, afinal eles ainda estavam de “peito cheio” por causa disso e tive de lhes estar a falar da importância que teria eles participarem na primeira edição do Indieota, etc. E os cabrões, no final, não apareceram. But the joke’s on them, porque nessa mesma noite tivemos os Eternal Champions e seguidamente os Cave Story e eles nem se importaram de tocar um pouco mais. Paralelamente, eu achei que não era justo estar só a pegar em bandas de A list e acabei por ir buscar inclusivamente algumas bandas de garagem. A certo ponto, dei por mim e já tinha um cartaz gigantesco, um cartaz de 24/25 bandas (aproximadamente) que tive obrigatoriamente de dividir por três dias. Aquilo foi uma desorganização gigantesca, foi uma merda. Por outro lado, foi muito fixe precisamente por ter todo aquele espírito “garageiro”. Estava mal organizado, mas foi fixe na mesma. As pessoas que supostamente iriam fazer o festival comigo saíram fora e não me queriam pagar, eu tive de trabalhar horas e horas seguidas para conseguir fazer o Indieota acontecer, eu chegava ao fim do dia exausto. Tanto que as canções do meu primeiro disco tiveram de ser gravadas em pausas do trabalho. Por isso é que me custou ouvir muita gente a encorajar-me a desistir e a dizer que eu nunca conseguiria fazer aquilo…mas pronto, no fundo, foi o que foi. Dadas as circunstâncias, até posso afirmar que correu mais ou menos bem. Não foi perfeito, mas foi bom.

H2T: Então consideras que, não obstante os percalços e o desafio que foi trazeres um festival como o Indieota à vida, o saldo foi positivo? O que é que retiraste da experiência?
GENES: Foi com este festival que eu também percebi um pouco como é que a indústria funcionava: com quem é que tinhas de falar para fazeres as coisas acontecerem, o que é que tinhas de fazer, tudo isso. Eu, na altura, disse ao vereador da cultura que não ia pagar um único cêntimo porque eu basicamente organizei o evento de maior dimensão que a cidade já viu nos últimos anos. Está mais que comprovado. Aquilo chegou à Agência Lusa. Eu basicamente disse que ele tinha de me dar para a mão um cheque de mil euros e que, com esse dinheiro, eu ia arranjar uma maneira de trazer cá bandas com honorários low cost, que no fundo era o que eu queria. A resposta que tive foi que o meu plano era louco e que eu precisava de ir arranjar financiamento externo. Face a isso, passei-me e disse que os eventos que eles organizavam eram péssimos, que aquilo em que investiam e as bandas que chamavam para tocar na cidade não valiam nada e que, dessa forma, literalmente estavam a repelir pessoas da cidade. Então decidi ir falar com o pessoal do Fórum Montijo, tanto que eles acabaram por patrocinar o Genes também, se bem que isso é outra história. Falei com a Sagres também, consegui ainda reunir alguns apoios e, desse modo, disse a mim mesmo que não iria pagar um único cêntimo por este festival. Convenci-me de que tinha de envolver investidores e de que, custasse o que custasse, haveria pelo menos um investidor a acreditar no projecto e a passar-me um cheque para a mão. Por exemplo, o Nick Suave tem o Presidente da Câmara do Barreiro a “coçar-lhe os tomates”, literalmente. Ele passa-lhe um cheque para a mão e ele faz o que quiser com ele. Tem lá o festival dele, o Barreiro Rocks, as festas do Barreiro…e faz a cena dele. É basicamente isso que eu preciso, preciso de alguém que me “coce os tomates”, por assim dizer. Se me derem essa liberdade, eu consigo dinamizar uma coisa em grande. Eu já vou sendo um pouco mais radio friendly, também já vou conhecendo algumas pessoas e, portanto, tenho essa facilidade em trazer nomes até cá.

H2T: O festival esteve essencialmente localizado nos bares TimeOut e Bota Abaixo, que são dois pólos distintos de diferente gerência. Como é que correu a distribuição das várias bandas por estes dois “epicentros” do Indieota?
GENES: Foi uma merda. No caso do TimeOut, ficaram a dever-me dinheiro e tudo, aí 500 euros. Era suposto eles ajudarem-me com as bandas, pois na altura eu estava a ficar um pouco apertado – até tive de pedir 200 euros emprestados à minha mãe. Logo à partida, disseram-me que me iam pagar 250 euros antes do festival, que não me pagaram. As pessoas nem têm noção. Eu fui buscar frangos ao Continente e toda a gente que estava no festival comeu dali, não foram só as bandas. Aquilo foi uma anarquia. Fizeram um contrato todo exagerado a jurar que me pagava os restantes 250 euros depois do festival. Quando o festival acabou, começaram a enumerar tudo o que eu lhes devia por causa da cerveja e assim – quando, na verdade, foram eles que deixaram a cerveja morrer e oxidar. A cerveja estava a saber mal, toda a gente se queixou disso.

H2T: Olhando a outros obstáculos, tiveste dificuldades em arranjar o espaço para os concertos?
GENES: Não tive dificuldades em arranjar o espaço, o problema foi que quando as pessoas se começaram a aperceber que o festival ia mesmo ser uma coisa em grande, começaram a querer aproveitar-se de mim. E como eu estava sozinho naquilo, ainda era um pouco ingénuo, deixei-me levar um pouco nisso. Aquilo atingiu níveis catastróficos. Eu cheguei a um ponto em que pus a Agência Lusa a fazer um comunicado a acusar o TimeOut de tudo o que fizeram de errado e que me deixou na merda. Tive todos os artistas da cena indie a partilhar o artigo, inclusivamente: Filipe Sambado, Alex D’Alva Teixeira, Pega Monstro, B Fachada… Tudo isto também porque os responsáveis pelo TimeOut me impingiram que pusesse todos os cabeças de cartaz no bar deles, senão afastar-se-iam do festival. Aperceberam-se de que tinham uma grande fonte de lucro ali e quiseram tirar proveito disso. Mas comigo é assim: ou é para fazer uma coisa em grande, ou não o faço de todo. Para fazer coisas pequenas, mais vale estar quieto e calado. Mas quem sou eu na indústria? Eu não sou ninguém. Na indústria eu não tenho amigos, amigos a sério. Dou-me bem com muita gente, conheço pessoal de que gosto e com quem me dou bem, mas não confio neles a 100%. Só mesmo num grupo bastante reduzido de pessoas, entre as quais os PISTA, o meu primo Alex e assim. Todos os outros, um dia podem-te apunhalar. Cada um quer subir por si. Isto é uma selva, por que é que vamos deixá-los ganhar? É preciso é ganhar consciência de como as coisas funcionam e fazer com que elas aconteçam, sozinho. É importante não depender de ninguém. Se há coisa que eu odeio fazer é pedir favores. Até podes dar-me a mão, mas eu não tenho de apertá-la. Eu não te devo nada. É por isso que eu gosto de “contornar” as coisas. Tive pessoas a prometer-me que iam estar lá para mim, que me iam ajudar a promover as minhas canções quando o álbum saísse, que me iam pôr na rádio e na televisão, arranjar-me entrevistas aqui e ali e que, depois, nunca cumpriram. E eu contornei a situação e segui com aquilo que gosto de fazer. As pessoas às vezes são lixo.

H2T: Agora, a pergunta clichê: como é que te vês e te descreves a ti próprio como artista?
GENES: Eu não sou rapper. Essa é logo a minha primeira descrição, a mais importante de todas. Não quero estar exclusivamente associado à cena do hip hop tuga, não quero estar exclusivamente associado à cena do gangsta rap. Eu sou uma red star, estás a ver? Eu arranjei uma maneira qualquer de estar a fazer rap, sem estar a fazê-lo. É como que um subgénero que eu “criei”, digamos assim, a que eu gosto de chamar rat rap. É um subgénero que até pode incluir rappers que se dedicam precisamente a esse ofício, mas que não se prendem a influências unas no meio. Gostam de ouvir outras coisas: música punk, música exploratória, música experimental e progressiva, coisas do género. Gostam de ouvir, por vezes, tudo menos rap. Esse para mim é que é o motto do rat rap: eu não sou uma estrela do rock nem uma estrela da pop, eu sou uma estrela de “rato”. É assim que eu me defino, no fundo. Sou uma pessoa que gosta de produzir coisas, gosta de escrever merdas e gravá-las. Gosto de experimentar, acima de tudo.

Genes4Fotografia de Vera Marmelo

H2T: Tens tido, como tu próprio me referiste, uma agenda extremamente preenchida nos últimos tempos. Entre actuações no Damas (Lisboa), no NoMadSpot (Lisboa), no Copenhagen (Lisboa) com o Shaka Lion, na Casa Independente (também com o Shaka Lion e com a Tommy Genesis), no Tokyo (Lisboa), no Barreiro Rocks, no Água e Sal (Barreiro) com Tiny Montegomery, no EKA Palace (Lisboa)…há alguma actuação que queiras destacar? Alguma que te tenha marcado mais que as outras por algum motivo? Ou queres simplesmente falar comigo por alto sobre a experiência louca que tem sido correres estes sítios todos e partilhares os palcos com artistas de universos tão distintos?
GENES: Tive um concerto, uma vez, que foi uma merda. Eu nem fui, baldei-me ao gig (risos). Inventei uma história mega rebuscada, disse que tinha sido assaltado no metro e cheguei uma hora mais tarde. Também actuei ao lado do Shaka Lion, lá está. O Shaka traz sempre muitas gajas para os concertos e as actuações dele são sempre uma cena muito multicultural, é por isso que eu gosto dele. Foi muito fixe actuar ao lado de Tommy Genesis, na Casa Independente. Ter tocado com o Prince Harvey, por exemplo, foi fixe porque tive de lidar com um ego totalmente desproporcional face ao meu. É incrível estares a falar com o Prince Harvey, que chega ao pé de ti depois de um concerto e diz: “I’m gonna be the next thing. I’m gonna be the next star. I’m gonna shine brighter than the stars, man. I’m gonna be like Jupiter, man”. É mesmo malta de Nova Iorque, é malta com um ego mesmo cru. É incrível ver essas coisas porque para mim este “jogo” não existe. As coisas fazem-se mesmo sem expectativas, na brincadeira. Vindas de casa, de uma forma independente, as coisas resultam tão bem. Não estás dependente de ninguém, não estás a cravar o estúdio a ninguém. As coisas aparecem, simplesmente, e isso é muito fixe. Mas é fixe assistir também de perto ao declínio e à ascensão de artistas. Falo do Prince Harvey, por exemplo. O pai dele faleceu há relativamente pouco tempo, o que é mesmo muito mau, pelo que ele acabou por não aproveitar tão bem a hype que teve quando começou a lançar as cenas dele. Ele, na altura, explodiu. Se ele tivesse aproveitado isso melhor, já estaria noutro nível. Além disso, não podemos confiar muito na imprensa nem nos consumidores. Os consumidores a mim não me interessam, eu estou-me a cagar para o facto de gostarem ou não gostarem daquilo que estou a fazer. Para mim, os consumidores são um ser bipolar por natureza, hoje podem gostar das minhas canções e amanhã já não gostar. Eu não preciso de ganhar o respeito dos consumidores, eu preciso de ganhar o respeito dos meus peers. Eu preciso de provar-lhes que não sou só mais um e que não estou a roubar o lugar de ninguém. Eu mereci o meu lugar. Hoje em dia, há muito artistas que dizem logo à partida que querem ser grandes, mas que se esquecem de explorar uma fase muito importante, que é a fase underground. E é dessa fase que eu nunca quero sair. Somos uma comunidade, uma cena que se celebra a si mesma. Eu vou ao concerto do meu amigo Manel, o Manel vai ao meu concerto. O Manel partilha o meu disco, eu partilho o disco dele e vamos celebrando-nos uns aos outros. E eu tenho sempre pessoas que vão ouvindo a minha música e vão dizendo coisas positivas e negativas. É tudo muito engraçado e eu não quero sair disto. Por isso é que eu sinto que a coisa está estável, precisamente porque é feita entre amigos. Há também uma certa solidariedade. O Damas podia ter-me posto a actuar em qualquer dia da semana e pôs-me a tocar num sábado, por exemplo. Isso mostra também algum amor e mostra que efectivamente acreditam naquilo que faço. E eu quero manter isto: a amizade como alicerce máximo. Os meus amigos alinham nas minhas ideias, se eu quiser saltar para cima deles num concerto eles alinham, se for para fazermos um moche fazemo-lo todos. Actuamos, depois vamos ao Estrela beber umas cervejas e pronto, é isto.

Entrevista por Sofia Paralta Camilo

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