Entrevista por Paulo Silva

Dekor, nome já bem conhecido no panorama do Hip Hop nacional, prepara-se para lançar o seu primeiro álbum de originais ainda este ano, de nome “Som de Fundo”. Querendo descobrir mais sobre este MC e Produtor do norte, responsável pela incansável label Carisma Records, o H2T decidiu propor uma entrevista com o mesmo, onde focámos essencialmente todo o seu percurso até aos dias de hoje, bem como o álbum que está a caminho.

“Esse álbum marcou-me de tal maneira, que não tenho absolutamente dúvida nenhuma que não seria a mesma pessoa se não tivesse absorvido a mensagem e todos os valores que esse álbum me transmitiu.”

H2T – Quando foi o teu primeiro contacto com o Hip Hop?
Dekor – O meu primeiro contacto com hip hop não te sei dizer especificamente quando foi, mas foi o rap que me cativou, lembro-me que as primeiras faixas que ouvi foram a “Bons velhos tempos” de Boss AC e a “Mulher da minha vida” do Chullage. Mas a primeira vez que ouvi a sério, a saber o que estava a ouvir, foi o álbum dos Dealema – “Dealema”, que foi certamente o álbum que mais ouvi e mais me marcou desde sempre. Ofereceram-me num natal que passei em casa de uns familiares de um membro da banda.
Esse álbum marcou-me de tal maneira, que não tenho absolutamente dúvida nenhuma que não seria a mesma pessoa se não tivesse absorvido a mensagem e todos os valores que esse álbum me transmitiu.
A partir daí comecei a pesquisar e a procurar mais rap. Ia a casa dum vizinho meu que era o único no prédio com internet na altura, pesquisar no eMule novos álbuns e faixas para ouvir. Também tinha um amigo da minha turma, o Rui Leal, que me emprestou o “Suspeitos do Costume” dos Mind da Gap que também consumi imenso.
Mas a maior parte da minha descoberta foi solitária, não conhecia praticamente ninguém que gostasse de rap na altura.

H2T – Quando é que surgiu essa vontade de rimar e produzir, juntamente com o nome “Dekor”?
Dekor Quanto mais ouvia e me apaixonava pela música e pela cultura, mais o bichinho foi crescendo. Também sempre gostei e tive contacto com poesia graças à minha mãe. Mas curiosamente quando comecei a dar os primeiros passos, algures por 2004, foi através da produção com o Hip Hop E-Jay.
Entretanto conheci o Mentor que já produzia no Acid e deu-me lá umas luzes. A primeira faixa que gravei até foi num instrumental meu.
Nessa altura o meu nome era Joker, o Dekor surgiu uns anos mais tarde porque senti necessidade, muito por já existir um writer com o nome Joker, uma banda de jazz, e também porque já não me dizia grande coisa.
O nome Dekor também não tem grande história, tentei juntar os meus nomes “André Costa” e acabei em “Deco” (meu jogador preferido de sempre) e acrescentei o resto.

“Desde que conheci o Mentor a aventura começou.”

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H2T – Como é que descreves o teu percurso até agora?
Dekor – Desde que conheci o Mentor a aventura começou. Acabei por gravar e lançar em 2006 o meu primeiro EP, o “Força de Vontade”, tudo com beats do Mentor e tudo gravado e mixado em casa dele. Como Joker lancei este tal EP e a mixtape “Greve Geral” em 2007.
Nesta altura era o “primetime” do MySpace, onde conheci imensa gente, inclusive o Puro L, com quem partilho hoje palcos. Nesta altura também comprei o meu material, montei o meu estúdio caseiro e comecei a gravar e a misturar as minhas músicas, mas meti a produção de lado, não voltei a pegar nos beats, até há pouco tempo.
Mais tarde em 2011 lancei um projeto com uma banda que tinha com o SIK, os “Elite 4445“, lançamos a mixtape “Calibre 380” que foi altamente, ainda demos uns bons concertos nessa altura.
Em 2012 lancei também um EP com o Cap: “Uma Semana com TK nos beats”, um projeto que me deu imenso gozo fazer. Fui para casa do Cap em Setúbal passar uma semana de férias, e enquanto o TK ia produzindo em casa, mandava-nos beats novos todos os dias. Nessa semana gravamos 9 músicas, escolhemos 7 e lançamos esse EP.
A partir daí comecei a trabalhar num projeto a solo, outro EP. Conheci o meu mano PLS de Barcelos, que me produziu inteiramente o projeto e tive o prazer de contar com o DJ Hipe nos cortes. Daí nasceu o EP “Veneno” em 2014.
Fora isto, sempre fui colaborando com muita gente, participei em muitas músicas, gravei muito pessoal, como a mixtape do Mentor, a mixtape do Hades, uma mixtape do Buli 2B, uma mixtape do P1, um álbum do Realista e mais algumas coisas que foram surgindo.

“Carisma Records é a minha label, o meu estúdio, as minhas ideias, o meu trabalho musical.”

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H2T – Fala-nos um pouco sobre a Carisma Records e todas as suas iniciativas, por exemplo, a Rimas com Carisma.
Dekor – Carisma Records é a minha label, o meu estúdio, as minhas ideias, o meu trabalho musical.
O Rimas com Carisma surgiu em 2014, quando resolvi começar a pegar nos instrumentais de novo.
Depois do EP “Veneno” que teve muita pouca visibilidade e me deixou um pouco desmoralizado com tudo isto, fiquei com pouca coisa para dizer e resolvi comprar uma MPC 1000 e retomar mais a sério com os beats.
Coincidiu também com a altura do meu mano Gilberto Barbosa (Hades) começar a lançar-se como freelancer nos vídeos. Tive então a ideia de convidar pessoal amigo, de quem aprecio o trabalho, para rimarem em beats meus, irem lá ao estúdio gravar e fazermos vídeos disso. Foi assim que o Rimas com Carisma surgiu, muito inspirado num projeto que o DJ Premier tinha, o “Bars in the Booth”.
No início convidei o pessoal mais chegado, primeiro foi o meu grande amigo Mentor (tinha que ser), o Roke 714 que estava a gravar um EP com ele na altura, o meu amigo de longa data Wrong, o meu parceiro Puro L e por aí fora. Os convidados acabaram por aparecer de forma natural.
Também quis sempre incorporar a vertente do Djing, que fora do rap é a vertente que mais me fascina. Convidei o meu mano Dj Walk para os primeiros, e já tive também o Dj Casca, Dj Flip, Dj Hipe e Dj Sir Cyber.
Recebi muito bom feedback e deu-me também a conhecer como produtor. Dá-me um gosto que não imaginas, produzir um beat, tentar perceber quem melhor pode lá encaixar, trabalhar num som e registar em vídeo. Basicamente acaba por ser uma desculpa para nos encontrarmos, gravarmos coisas e eternizar o momento em vídeo.
Actualmente o projecto continua ativo, tenho alguns na gaveta para lançar e não penso em parar para já. A diferença é que agora sou eu também que faço os vídeos, devido ao pouco tempo e disponibilidade que o Gilberto tem.
Tenho mais 2 projetos ativos: o “Dekor Beatmaking Series”, onde faço um vídeo de beatmaking para dar a conhecer um bocado o meu processo de produção. E o “Carisma Studio Sessions”, onde registo tudo desde a escolha do sample até ao final do instrumental. O MC que está comigo no estúdio, enquanto eu faço o beat, faz 16 barras para ir cuspir a seguir. É algo mais descomprometido onde nos divertimos todos e fazemos as coisas na desportiva, sem nos preocuparmos demasiado com estéticas e todos os pormenores, simplesmente fazer e divertir.

“Eu acho que o melhor que o Hip Hop me ofereceu foram as pessoas. A quantidade de gente com quem travei e as amizades que fiz ao longo dos anos é incrível, e nada disso seria possível sem a música.”

H2T – Porque agora? (o álbum)
Dekor – O álbum surge agora porque foi quando teve de ser. Senti mesmo necessidade de o fazer e que tinha reunido todas as condições necessárias para realizar o trabalho com que sempre sonhei. Os beats são todos meus, gravações, misturas e masters também. Edição de autor, como sempre quis fazer. Também tinha bastantes coisas a dizer, daí esta ser a altura ideal para lançar o meu primeiro álbum.
Como curiosidade, o álbum terá 18 faixas em homenagem ao álbum da minha vida, o de Dealema de 2003.

H2T – Porque o nome “Som de Fundo”?
Dekor – ‘Som de Fundo’ é o nome escolhido porque o álbum é o ‘meu ambiente’, é um álbum muito pessoal, recheado de experiências minhas no rap e na minha vida privada, expus-me bastante, tenho uma faixa que é inteiramente dedicada e a falar da minha família e do meu crescimento. Tenho outra que falo de uma experiência de problemas de saúde que tive, onde exponho muitos dos meus medos, com pormenores muito íntimos que só em poesia os consigo exteriorizar. Daí o ‘Som de Fundo’, é o meu Som de Fundo, o meu ambiente, a banda sonora da minha vida. Como grande parte da minha vida gira à volta da música, penso que o nome encaixa como uma luva.

H2T – Através dos dois singles de avanço podemos já verificar uma participação: DJ Flip. Podemos esperar mais participações? Se Sim, porque esses convidados?
Dekor – Como já te disse, a nível de beats ficou tudo a meu cargo. A nível de scratch ficou tudo a cargo do DJ FLIP, é o único DJ no álbum.  Participações nas rimas acabei por ter algumas… mesmo no meio de tanta música pessoal adoro partilhar faixas com MC’s amigos e de quem realmente adoro o trabalho. Sempre adorei o rap pela partilha, estar com pessoas no estúdio, trabalhar com elas, trocar ideias, etc. A maior parte dos meus grandes amigos foi a música que me deu. Posso-te adiantar até em primeira mão as participações: para além do DJ Flip entra o Able em 3 refrões, o meu mano Nocas Infinito, Lazy, Maze, Macaia, Relax e Brdz.

H2T – Num aspeto mais informativo, fala-nos um pouco sobre o artwork e onde estará o album disponivel.
Dekor – Quando o álbum sair estará inteiramente disponível no meu canal de YouTube: “Carisma Records TV”. Terá também mais 3/4 videoclips cá fora para além dos que já saíram. Já tenho mais 2 fechados e prontos a publicar.
Irei ter também disponível versão física para coleccionadores e quem tiver gosto em ter o álbum na mão. Mais tarde também penso em fazer versão de vinyl para quem quiser.
O artwork foi feito pelo meu amigo de longa data, com quem já tinha trabalhado em 2 projetos anteriores, o António Pinho. O artwork foi a puxar a algo mais clássico, mais anos 90, que é muito o feeling do meu álbum e onde mais me inspiro. E de facto o António Pinho fez um trabalho incrível, ainda melhor do que eu esperava.

“Tive o prazer e o privilégio de tocar no HardClub no meu dia de anos e juntar 8 pessoas amigas no mesmo palco a tocar uma faixa, e por uma causa tão nobre.”

H2T – Qual achas que foi o melhor momento que o HipHop te proporcionou até hoje?
Dekor – Eu acho que o melhor que o Hip Hop me ofereceu foram as pessoas. A quantidade de gente com quem travei e as amizades que fiz ao longo dos anos é incrível, e nada disso seria possível sem a música. Como já te disse, coincidência ou não, os meus grandes amigos, grande parte deles, conheci-os através desta bela arte.
Pensando num momento específico, talvez o que mais me tenha marcado, tenha sido o ano passado (2016), num concerto solidário no HardClub pela Hodi Kibera, organizado pelo Zero, que coincidiu com o meu aniversário. Tive o prazer e o privilégio de tocar no HardClub no meu dia de anos e juntar 8 pessoas amigas no mesmo palco a tocar uma faixa, e por uma causa tão nobre. Esse foi provavelmente o momento mais marcante para mim: fazer a festa com os meus amigos a fazer aquilo que mais adoro.

H2T – Para terminar, fala-nos um pouco sobre o que pensas da atualidade da cultura HipHop e, se pretenderes, deixa uma mensagem para todos os intervenientes.
Dekor – Penso que a cultura não está incrível, mas o rap está. E digo isto porque as outras vertentes são muito esquecidas quando se fala de Hip Hop. Já o rap tem uma quantidade de gente incrível que o faz e com qualidade, e imensa gente que ouve e enche festivais, por exemplo. Quando eu comecei, e nem sequer sou dos mais antigos, longe disso, pouca gente ouvia e pouca gente conhecia. Andava na escola e era o “gajo que curtia rap”, hoje em dia isso está instituído em todo o lado. Claro que há muita coisa que adoro e outras que já não gosto tanto, mas a diversidade é tanta que te permite selecionar aquilo que mais gostas. O que não gosto, ou gosto menos, ouço uma vez e não volto a ouvir mais, easy like that.
Claro que se calhar há coisas que não têm o mesmo espaço que outras, mas vivo bem com isso. Sempre existiram as modas e quem realmente é bom é quem fica, o resto é mastigado uns tempos e esquecido. Eu continuo por cá no meu canto refundido que nem rato de laboratório no estúdio, a fazer as minhas coisas a meu gosto, quando posso, quando quero e como quero. Felizmente não preciso da música para viver, o que me permite que esta relação com a música seja apenas de prazer.
Queria deixar uma mensagem, mas para o H2tuga: desde que me interessei e quis aprender coisas sobre rap, conhecer novos artistas e estar a par, desde sempre que o H2tuga foi a minha enciclopédia!
Há uns 10 anos tive o prazer de colaborar convosco e pude perceber com toda a gente com quem tive contacto, o gosto que têm por esta cultura. Cada um com o seu trabalho, os seus estudos, o que seja, unidos pelo mesmo propósito, o Hip Hop. Muito obrigado por tudo que já fizeram e continuam a fazer por todos nós, quer sejam ouvintes ou praticantes da cultura. Sem vocês o Hip Hop nunca teria sido escrito da mesma forma, bem hajam!

Entrevista por Paulo Silva

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