Entrevista por Rui Meireles
Fotografias por Marco Santos

Crossover talvez não seja o mais reconhecido dos rappers mas, as ruas de Sintra e em particular Queluz-Belas conhecem bem este nome que se aponta há já alguns anos como uma forte promessa na cena nacional. A espera foi longa, mas o passado ano de 2016 trouxe finalmente às ruas o primeiro álbum de originais “Doa a quem Doer”, um trabalho conjunto com DJ X-Acto que, apesar de um pouco à margem dos holofotes tem em si declarado a paixão pela Cultura Hip-Hop.
Do seu passado ao presente, das dificuldades às convicções, passando pelas emoções deste primeiro trabalho – são estas algumas das linhas orientadoras em conversa directa com o MC que agora vos convidamos aqui a conhecer melhor.

H2T – Porquê o nome Crossover e como surgiu o teu primeiro contacto com o Hip-Hop?
Crossover
Essa pergunta é curiosa porque tanto o nome como o meu primeiro contacto com o Hip-Hop vieram do mesmo “sitio”, as MixTapes da And1. Quando fui estudar para o Liceu de Queluz que foi uma escola que sempre teve uma cultura muito grande de Basketball, acabei por ser levado nessa febre.
Na altura tinham aparecido as MixTapes da And1 e andava toda a gente maluca com aquilo. A ideia era treinar os truques e fazê-los aos colegas nos jogos dos intervalos, (risos) bons tempos! Um dos movimentos era o chamado “Crossover” e o meu nome inicialmente vem daí porque passou a ser a minha alcunha. Mais tarde quando comecei a rimar acabei por adoptar o mesmo nome porque o meu gosto nos ritmos, nos instrumentais, no flow passa muito pelo sampling e pela mistura de estilos completamente diferentes. Daí o “Crossover”, o cruzar de estilos musicais.

H2T –  A linha de Sintra e, em particular, Queluz-Belas foi a zona que te viu crescer e enraizar nesta Cultura. Consegues dar-nos alguns destaques sobre a saúde desta zona (do passado ao actual) relativamente ao movimento?
Crossover
É com muita satisfação e orgulho que afirmo que a Linha de Sintra, em particular Queluz-Belas, sempre foi uma zona muito rica no que toca a matéria do Hip-Hop e não só, sempre houve uma veia artística na cidade desde cedo, com muita gente a formar bandas e a criar nas áreas e culturas com que se identificavam mais. A juventude não se contentava em gostar de uma coisa, tinham que fazer parte dela.
Mas relativamente ao movimento Hip-Hop de Queluz, existem duas vertentes que foram sempre muito fortes, o Graffiti e o Rap. Lembro-me de ser muito novo e já haver uma cultura muito forte no Graffiti, muita gente a pintar, CWK, The Bombers Crew, eram algumas crews com muita gente a evoluir nesta arte. Hoje em dia continua em altas, e os 80’s são o colectivo que está mais no activo, basta andarem bem atentos de LS a LX para perceberem porquê (risos). Aproveito para mandar um grande abraço ao Dokir, Souza aka Koer, KB1 e ao Kurtz Amor que são quem eu considero que mais elevaram e continuam a elevar a zona nesta vertente que eu respeito a 100%.
Na vertente do Rap, é inevitável falar da Força Suprema, que considero os grandes impulsionadores do Rap em Queluz, o Colectivo Cazota Prod. com quem cresci e que sempre contribuíram com muita qualidade para o movimento da zona, Splinter, Bully, Fido (produtor), Kamy, Litos, espero não me esquecer de ninguém. Destaco ainda o Colectivo Montana Family do Monte Abraão do qual faz parte o Jintinflow que também contribui e bem para a qualidade do movimento Hip-Hop de Queluz. Na vertente DJing, destaco o DJ Link na altura também foi uma grande influencia para todos por ter sido o primeiro DJ a destacar-se realmente na vertente. Sobrando o Breakdance que penso que foi a vertente menos desenvolvida e por isso não ter conhecimento de destaques. Em suma considero que a zona sempre esteve e vai continuar de boa saúde relativamente ao movimento Hip-Hop.

“A capacidade de improviso é sempre uma mais valia para qualquer artista, considero esses skills muito importantes e a sua prática acaba por ser um treino para alargar a capacidade de escrita e facilitar o processo de construção de ideias de qualquer MC”

H2T –  Uma das valências que te é mais reconhecida é a capacidade de improviso. Qual é para ti (se é que tem alguma) a importância destes skills na vertente do rap ou, mais pessoalmente, no teu processo de criação e construção?
Crossover A capacidade de improviso é sempre uma mais valia para qualquer artista, considero esses skills muito importantes e a sua prática acaba por ser um treino para alargar a capacidade de escrita e facilitar o processo de construção de ideias de qualquer MC. Esta capacidade acaba por dar frutos em muitas situações na vida de uma pessoa porque no fundo é uma preparação para agir com rapidez e eficácia perante alguma adversidade ou alguma decisão num determinado momento.

H2T –  A faixa “A(Corda)” existente neste álbum foi já um tema escolhido pelo DJ Nel Assassin para em 2011 entrar na compilação da Fnac “Hip Hop Series Vol. 3”. Conta-nos como surgiu e qual foi para ti a sensação e o feedback desta inclusão naquele momento.
Crossover
Depois de uma sessão de estúdio com o DJ X-Acto, precisamente depois de termos gravado esta faixa, ele disse-me que o Nel’Assassin estava a fazer uma seleção para uma compilação e que andava a procura de sons fresh. Como som mais fresh não há do que o acabado de ser gravado (risos), o X-Acto perguntou-me se não estava interessado em incluir a faixa no projecto. Como é óbvio aceitei logo, ainda por cima numa cena do Nel’ Assassin que era dos DJs que eu mais sentia e que está indiscutivelmente na lista das pessoas mais influentes e que mais fez pela cultura Hip-Hop em Portugal. Na altura nem o conhecia pessoalmente. E assim foi, o X-Acto passou a malha ao Nel’ Assassin e ele disse logo que estava dentro. A sensação foi muito boa por vários motivos, primeiro era um ‘buzz’ super positivo para o meu projeto porque era a 3ª compilação com o carimbo da FNAC e as outras duas tinham resultado muito bem, estava tudo à espera da 3ª. Depois foi óptimo conhecer o Nelson e todos os intervenientes na compilação, nunca mais me esqueço do concerto de apresentação que demos no MusicBox em que estava casa cheia e o pessoal todo partiu a casa. Foi uma óptima experiência, estava tudo com um ‘feeling’ muito positivo.

“O nome do álbum advém do facto de este conter mensagens com uma forte critica política e social e de as termos tornado públicas, doa a quem doer as verdades estão cá fora”

H2T –  O juntar desta faixa agora neste álbum e o intervalo de tempo de 5 anos demonstra o longo e árduo processo de criação deste trabalho? Se sim, conta-nos porquê e indica-nos se há também outras faixas com um tão longo intervalo entre o processo de criação e divulgação? (é também esta a razão para o nome do álbum?)
Crossover
 A faixa não foi incluída da compilação para o álbum mas sim do álbum para a compilação, apesar do álbum ainda não ter saído (na altura). O “Doa a Quem Doer” é um álbum que contém algumas faixas escritas em 2006 como o “Sente” o “Mantém” e até mesmo o “Visão Diferente”. Foi um álbum que passou por um longo processo de criação não só por algumas características complexas mas também porque alguns motivos académicos e laborais, tanto da minha parte como do X-Acto, não permitiam que tivéssemos todo o tempo que queríamos para o finalizar. Também nunca quis forçar as coisas e por isso deixei que tudo tomasse a sua ordem temporal.
O nome do álbum advém do facto de este conter mensagens com uma forte critica política e social e de as termos tornado públicas, doa a quem doer as verdades estão cá fora. Que sirva a carapuça a quem tiver de servir.

H2T –  Fala-nos desta tua parceria de longa data com o DJ X-Acto a ponto de realizar um álbum em conjunto.
Crossover  Conheço o X-Acto há muitos anos, sempre partilhamos muitas ideias e aprendi muito com ele. Na altura que decidi que queria fazer um projecto com qualidade aconselhei-me com ele e surgiu logo a ideia de fazermos juntos. A vertente do turntablism sempre me fascinou e tive logo como ideia torná-la tão presente como o MCing no meu trabalho. O X-Acto mostrou-se com vontade e disponível e começamos a trabalhar nesse sentido. Quero agradecer-lhe porque ele é o grande responsável por este trabalho se tornar possível. É um enorme prazer trabalhar com ele e tê-lo como amigo.

“Eu posso dizer que fui educado pelo Rap e por isso também o quero utilizar como forma de educação e esclarecimento.”

H2T –  Do instrumental à mensagem presente sem esquecer a forte e constante presença de Djing ao longo de todo o álbum; este é um trabalho que facilmente nos remete aos tempos e sentimentos Old-School. Foi algo propositado ou simplesmente algo que é inevitável na tua música e nas tuas influências?
Crossover
Comecei a ouvir Rap em 2002/2003 que foi precisamente a época dourada do Hip Hop em Portugal. São inevitáveis este tipo de influências tanto no meu trabalho como na minha maneira de ver a vida. Posso dizer que o Hip-Hop Tuga e muitos dos seus artistas são responsáveis por muitos dos meus princípios e por muito da pessoa que sou hoje. Eu posso dizer que fui educado pelo Rap e por isso também o quero utilizar como forma de educação e esclarecimento. Por mais que tentes fazer coisas à tua maneira ou diferentes as tuas influências acabam sempre por estar presentes, nem que seja na forma como planeias fazer as coisas.

Crossover

H2T –  Sentes que actualmente faz falta algum cuidado/consciencialização do poder da mensagem e da vertente educacional enquanto propósito da música rap?
Crossover
Sinto, sinto mesmo. Existem muitos artistas que não ligam a meios para atingir fins, a própria indústria musical e quem está por detrás dela não quer saber que mensagem está numa música desde que a música fique na cabeça e que venda. Infelizmente isto é uma realidade.
Tenho consciência que muita gente utiliza e muito bem o Rap para consciencializar e passar mensagens de uma forma positiva e produtiva para a sociedade, e a esses tiro-lhes o chapéu, têm todo o meu respeito. Mas não é preciso estarmos muito atentos para repararmos que hoje em dia o Hip-Hop é muito consumido pela juventude, seja de que classe social for, e que muitas vezes não existe um cuidado com a mensagem que se transmite. A música é uma arma que muita gente subestima. Parece que já se esqueceram da influência que as mensagens subliminares tiveram outrora na música portuguesa perante o estado do Regime.

H2T  – Na faixa “Promove” afirmas “Só faço isto pela Cultura e isso não se explica”. Apesar da dificuldade em alongar esta explicação, achas que esta tua principal motivação pode ser no final um obstáculo à tua própria promoção e exposição?
Crossover
 Não, acho que não. Quer dizer, depende se gostas do que fazes e se acreditas nas tuas convicções. Faço-o pela cultura porque gosto da cultura Hip-Hop, quero que ela se eleve e quero contribuir para isso. Por isso acho que a minha motivação nesse sentido até acaba por ser mais um incentivo e não um obstáculo na promoção e exposição do meu trabalho. Claro que estes são princípios só valorizados por algumas pessoas mas é com essas pessoas que quero estar.

” Penso que se todos os intervenientes no Hip-Hop Tuga em Portugal lutassem todos uns pelos outros haviam muitas mais oportunidades para todos e toda a gente ganharia com isso”

H2T – No tema “Visão Diferente” disparas críticas a uma realidade do movimento Tuga onde, em simultâneo, elevas aqueles que “lutam por isto”. Se pudesses resumir este tema – O que achas que faz actualmente mais falta à Cultura Hip Hop, às suas vertentes e aos seus intervenientes?
Crossover
Este tema é um bocado sensível porque muita gente tem a sua maneira de ver as coisas e não tem que haver a maneira correcta e a maneira errada de agir, cada um passou pelo que passou e faz o que tem a fazer e há que se respeitar isso. Mas na minha opinião acho que existe pouco apoio entre artistas, existe um bloqueio, um atrito em apoiar quem procura o mesmo. Penso que se todos os intervenientes no Hip-Hop Tuga em Portugal lutassem todos uns pelos outros haviam muitas mais oportunidades para todos e toda a gente ganharia com isso. Sinto muitas vezes que existe aquela competição para ver quem é melhor ou quem se afirma mais e isso muitas vezes não é saudável. Acabam por olhar todos demasiado para si próprios e as coisas são mais difíceis de alcançar sozinhos. Juntem-se, promovam-se uns aos outros, criem empatias, colaborem sem segundas intenções e sem desconfianças e vão ver que dá para todos. Somos um país pequeno, aqui a fragmentação não resulta como por exemplo nos EUA que são milhões e milhões de pessoas e 90% consomem Rap. Se nos dividirmos e nos isolarmos vamos ficar cingidos à nossa zona e acabas por ser ouvido só por quem conheces. Acho que ninguém quer isso, todos queremos que a nossa música chegue o mais longe possível por isso é melhor que haja mais união.

H2T – O que podemos esperar de Crossover para o futuro? A espera está destinada a ser longa como foi até aqui?
Crossover Agora quero fazer umas faixas soltas com algum pessoal que já estão por ser feitas há algum tempo e só não foram feitas porque queria fechar o capítulo do álbum. E, estou juntamente com o Tombo a preparar um EP com algumas surpresas, decidimos sair um bocado da nossa zona de conforto e fazer algumas experiências tanto nos beats como no flow. Fiquem atentos às faixas soltas que vão saindo porque vão sair clássicos.

H2T – Tens algum sonho ou objetivo a título pessoal que gostasses de ver acontecer no que toca ao rap?
Crossover
Gostava de viver disto e ter todo o tempo do mundo para me dedicar à música. Mas a vida não são rosas, eu não nasci rico e também não me vou vender (se é que me entendem). [risos]

H2T – Sentes que há algum tema que tenha ficado aqui por abordar? Queres deixar alguma mensagem final?
Crossover
Ficam sempre muitos temas por abordar mas isso é normal quando ainda há tanto a dizer hehe.
Antes de mais quero agradecer-te a entrevista a ti Rui, e agradecer e felicitar toda a equipa do H2Tuga pelo excelente trabalho de divulgação que têm vindo a fazer ao longo dos anos no Hip-Hop Tuga. Quero enviar um forte abraço a toda a gente que me apoia e que acreditam no meu trabalho, são vocês que me elevam! Obrigado. E por fim um enorme abraço a todos os intervenientes neste álbum, DJ X-Acto, Kytta, Tombo, MZ Boom Bap, Farraia, Vinil, Tiago Silva, sem vocês não era possível. Estamos juntos minha gente, Doa a Quem Doer.

Entrevista por Rui Meireles
Fotografia por Marco Santos

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