entrevista por Lúcia Veríssimo

“O Hip-Hop salvou-me”

No cartão de cidadão chama-se João Marques, mas para os amigos e para o hip hop – que também vê como um amigo com quem pode sempre desabafar – o seu nome é Chapas.

“Chapas no mic”, é como é conhecido no meio em que cresceu e pelos amigos que acompanham o seu percurso desde o primeiro improviso aos videoclips que hoje grava.
“Chapas foi porque pintava. Sempre tive qualquer coisa que me puxava para o hip hop desde puto. Era o Chapa Dux, mas Chapa Dux já era um bocado grande quando ia para pintar. Aquilo tinha que ser rápido, então encurtei e ficou só Chapas”. Deriva daí, explica-nos a origem do nome.

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É no Entroncamento, cidade onde vive, que o sonho se vai tornando realidade. As oportunidades vieram com o tempo. O primeiro local onde gravou foi no quarto, com o microfone de um amigo. Só mais tarde, em 2012, é que teve “o primeiro mic”, com o qual gravou algumas faixas. O sonho começava a ganhar voz. “Lembro-me como se fosse hoje. Os meus amigos chegaram com uma mala e epá… Fiquei mesmo muito contente e emocionado. Foi com esse mic que gravei as minhas primeiras faixas.” relembra.

Em 2013 lançou a primeira mixtape “Atrás da Cortina” e só mais tarde, em 2017, é que “deu a cara”, com o videoclip que lançou para a faixa “Rascunhos “, já na sua segunda mixtape. A par disto, disse-nos como ficou entusiasmado. Era uma coisa nova e não esconde que foi o que sempre quis. Tinha consciência de que ao mandar um vídeo iria “bater” muito mais do que só a música. “As pessoas vão mais para ver e não tanto para ouvir, apesar de não concordar muito que assim seja mas temos que nos adaptar à realidade”.

Foi com a ajuda do irmão e com o apoio dos amigos que deu o passo que então lhe faltava: gravar um videoclip. “O pessoal apoiou-me porque sente e sabe que estava a trabalhar para crescer e para evoluir. Para além do apoio deles, contei também com o meu irmão. Ele percebe de filmagens, está dentro disso, e ajudou-me. Eu tentei promover o trabalho dele, ajudámo-nos aos dois. Montámos o vídeo juntos, e foi daqui que resultou o meu primeiro videoclip, da música “Quem eu Sou”.

Nesta faixa, Chapas diz-nos que “continuo num só caminho e direção, orgulhoso com um sorriso na cara e lápis na mão” o que, no fundo, acontece graças ao rap. Ouvir os seus sons fê-lo crescer em termos musicais: “Sinto que evoluí, e ainda bem. Se ficasse parado, não valia a pena. Evoluí na lírica. Hoje em dia, sinto diferença na métrica e no flow. Quando escrevo, já escrevo com aquela ideia de ‘vou dizer isto assim e depois assim’ porque vai ficar bacano. Já penso mais nas coisas”, conta.

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É para si mesmo que escreve, ainda que tente sempre passar uma mensagem aos outros. Embora “dependa muito da vibe, a intenção é que a mensagem seja sempre positiva. Do género, se hoje estás mal, pensa positivo porque quando estamos mal, o problema está na nossa cabeça. Depende de nós”.

Chapas vê no rap uma “salvação”, no que não é o primeiro nem há-de ser o último. “Foi quando gravei o meu primeiro som que senti que tinha mesmo que o mandar para a net, numa altura menos boa pela qual passei. Sentia-me aliviado graças ao rap, cada vez que eu escrevia sentia-me bem porque não pensava em mais nada, só naquilo, na letra que tinha à frente. O hip hop não só me ‘salvou’ como me deu amigos, histórias para contar e me fez ser quem sou hoje. Num som que estou a escrever agora ‘Multar o hip hop’, digo: ‘Fizeste-me ver quem é o amigo / Fizeste-me ver quem é o inimigo / Aproximaste-me do perigo / Mas ensinaste-me a sair desinibido’. O hip hop deu-me tudo”.
Embora o sonho sempre fosse cantar, foi no grafitti que começou, por isso fala da cultura como um todo, como um estilo de vida, defendendo que as vertentes do hip hop estão interligadas entre si. “Esta cultura é um estilo de vida. É uma coisa que adotas, acompanhas desde cedo e abraças de uma maneira gigante. Se tu passares muito tempo com os teus rapazes na rua, se conviveres, vais ver que o que se passa é que, inconscientemente, muita gente tem o hip hop dentro de si, quer seja na dança, no rap, na maneira de falar, vestir, no que for. A dança, por exemplo, podes até nunca ter dançado mas tinhas uma certa maneira de andar ou de vestir”.

É já no próximo ano que o rapper irá lançar a EP “Tás a ver? Vol. 1” e tendo já concertos agendados para janeiro e março.

Entrevista por Lúcia Veríssimo

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