Pelas ruas da minha cidade está sempre a passar e acontecer alguma coisa diferente. Dado isto como um facto, não me deveria surpreender ao ver um writer expressando-se nas paredes. Contudo é sempre um momento mágico ver aquele processo de criação e perceber o trabalho, dedicação e amor que há para atingir toda uma obra.
O writer em questão? Nada mais nada menos que YouthOne (ou Ridículo na qualidade de Mc) que, directamente das origens e com um reportório já extenso, acedeu ao meu desafio e procedemos a uma troca de palavras.

Entrevista por Francisco Ribeiro

H2Tuga – Falando em primeiro deste trabalho em concreto. No que está a consistir?
YouthOne – Basicamente isto é um trabalho comissionado, vai ser um centro de estudos e estou a desenvolver algo associado ao tipo de pintura e ao tipo de empresa que é. Isto não é um trabalho de estilo livre apesar de estar a meter o meu cunho pessoal mas tento acompanhar sempre o ideal de quem me contratou. Neste momento estou a fazer o logótipo deles (empresa) ao meu estilo e é basicamente isto que eu estou a fazer aqui

H2Tuga – Agora de volta às origens. Há quanto tempo é que pintas e como é que começaste a pintar?YouthOne – Eu já pinto há 28 anos… Comecei a pintar em 88 se calhar um bocado antes mas eu gosto de meter 88 como sendo a altura em que eu realmente já fazia peças a cor. O meu trabalho tem-se desenvolvido a partir daí. Eu era de Carcavelos, onde supostamente o Graffiti começou e sou da geração da malta que espalhou o graffiti pelo país.

YouthOne Graffiti

H2Tuga – É um salto muito grande saíres só para pintar a começares a ter trabalho na área?
YouthOne – Eu continuo a sair como saía antes, a única diferença é que eu agora levo isto como uma profissão e tento associar isto a uma maneira de subsistir.  Já que tenho arte aplico isso ao meu trabalho enquanto pintor.

H2Tuga – Quais são as tuas principais influências neste mundo artístico?
YouthOne – Eu sou e sempre fui uma pessoa de characters, os bonecos do graffiti, e uma das pessoas que sempre me influenciou foi MODE2. Sempre foi aquele homem dos characters que acho me influenciou a mim e a muita gente que hoje faz graff. Pelo menos na altura, hoje em dia cada um segue o seu caminho e já há muita amostra. Existem muitos artistas novos que trazem também cenas novas. Eu basicamente sempre fui virado para os characters. Gosto de lettering mas eu sempre fui aquele que preencheu os espaços vazios com characters.

YouthOne Graffiti

H2Tuga – Writer ou Artista?
YouthOne – Writer é a palavra a certa e a que se usa para descrever uma pessoa do graffiti. Eu considero-me um writer. Na verdade a street art é algo que engloba tudo o que é feito na rua. Eu sou defensor que a street art, à semelhança do hip-hop, envolve várias vertentes. Há quem diga que não, há quem diga que sim. Logo fica ao critério de quem quer definir isso.

H2Tuga – Sentes que o graffiti não é tão acompanhado em comparação com outros movimentos?
YouthOne – O graffiti é acompanhado e aliás, se fores a ver, o pessoal que faz street art vem do graffiti. Todos eles. Mesmo os nomes grandes. Até nomes portugueses como por exemplo o ±MAISMENOS±, o Hazul… todos vieram do graffiti.
Depois há uns que têm umas formas mais conceptuais, inseridas no mundo da galeria. Hoje em dia toda gente quer ser famosa e pensa que de uma forma vai ser a galeria que lhes vai dar nome. Mas não, se formos a ver o exemplo  de Sofles, Cantwo e muitos outros, vemos que não é bem assim.
Hoje a linguagem também é diferente, inseres-se um bocado o grafismo, uma cena mais design mais misturado com pinceladas. Eu próprio também faço. Acho que não podemos morrer “burros”. E acho que o que define é mesmo o estilo. Tu podes pintar de mil e uma maneiras mas se tiveres o teu estilo, o teu cunho, a tua identidade não foge.

YouthOne Graffiti

H2Tuga – Sentes que cada vez mais os artistas não conseguem deixar a sua marca própria?
YouthOne –
Sim também. Eu acho que isso advém um pouco da tal conversa da Internet. Hoje em dia na Internet tens mil e um artistas e tentas seguir aquele que mais ‘Power’ tem, ou aquele pessoa que mais te identificas. Depois juntas um pouco daqui, um pouco dali e quando fores a ver já não tens uma identidade porque és um pouco de todos. Faz parte, no fundo é uma sequência. Como antes não tinhas muitas informações eras obrigado a criar uma cena tua. Claro que tinhas as revistas, copiavas sempre alguém e querias chegar àquele nome, querias também ser grande. Há gente que consegue, há outros que não… Às vezes nem tem a ver com o seres muito bom ou não, tem a ver com o percurso por onde tu mostras o teu trabalho e como promoves a tua arte.

H2Tuga – Sentes alguma diferença em relação ao apoio que tinhas para agora?
YouthOne – Eu tenho mais apoio do pessoal que não faz graffiti. O pessoal que faz graff é como no rap. “Eu sou mc e também sou bom e não tenho que apoiar os outros”. Eu acho que hoje em dia cada um tem que fazer o seu.  Se as pessoas se quiserem unir unem-se, se não dá, cada um para seu lado. Eu antes chateava-me muito com a falta de união agora já não me chateio, até porque acho que às vezes estás a dar “pérolas a porcos” e não vale a pena.

H2Tuga – Em jeito de mensagem final para o H2T.
YouthOne – Continuem a divulgar a cultura enquanto cultura. Eu agradeço que continuem porque realmente é necessário uma Cultura.

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YouthOne Graffiti

Entrevista por Francisco Ribeiro

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