Texto por Rui Meireles

Porque é importante saber os Porquês e porque certamente na maior parte das vezes (senão sempre) estes Porquês se reflectem nos conteúdos, acções e decisões; Fica o convite para viajarem também neste processo de reflexão e auto-análise onde deixo em aberto o desafio de nos compartilharem estes vossos Porquês.

Porquê? 
Uma pergunta tão simples e ao mesmo tempo tão capaz de nos deixar tantas vezes sem resposta.
Um princípio, um fundamento, uma crença, uma educação, uma pretensão, alguém, uma razão ou até algo inerente que nos leva a dar início à criação, passar da ideia ao fazer e, entretanto, nasce a Arte.
Penso que vale a pena pensar no porquê, assim como creio vale a pena pensar no que somos e porque o somos, pois com esta base de construção dificilmente nos fogem de mão os passos que damos.

Mudam-se os tempos mudam-se os porquês?
Honestamente… creio que sim. E com isto não estou (ainda…lá chegaremos) a querer  alimentar aquele saudosismo referente a tempos (viv)idos. Nem tão pouco afirmar o contrário, porque apesar do facebook a cada bom evento de rap nos trazer frequentemente afirmações como “nunca o Hip-Hop esteve tão bem” ou “Mais uma prova que o Hip-Hop está bem vivo”; será mesmo esta a realidade? Ou será que com isto dizemos apenas que nunca o Rap (e até outras vertentes) teve tanta abertura e oportunidades?!

O impacto da suposta evolução..
A verdade é que não podemos ignorar a progressão dos tempos e os seus impactos mais que visíveis a um nível global. E digo isto sem qualquer pesar, porque burrice seria não aceitar o lógico empurrão e o ‘Boom’ de vantagens e facilidades de aprendizagens e exposição que tudo isso acarreta; Aumentando também a qualidade, transformando a competição e, toda esta bola de neve se torna numa corrida frenética cada vez maior e mais fugaz em simultâneo… Mas assistir a esta corrida, pelo menos a mim, faz-me querer voltar ao princípio… Não na busca pela saudade, mas na procura dos Porquês? Porque nas facilidades destes processos são esquecidos esses Porquês e com eles, muitas das vezes, vai também o conteúdo/essência da Arte.

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O “antigamente”
Chegámos ao saudosismo (eu disse que cá chegaríamos) e entramos nos diversos clichés que são repetidos vezes sem conta nas comparações feitas à dita ‘nova escola’. A “união era diferente” sem dúvida, mas o que esperar se para gravar um som não basta os meios caseiros, ou pelo menos não era qualquer um que os tinha?! Não se aprendia breakdance no youtube… e latas? Só se fosse para pintar aquele arranhão do carro. Já para não dizer que falar disto na escola era estranho, afinal de contas onde já se viu considerar música algo que nem sequer usa instrumentos?

“Só queremos ser iguais nem ser menos nem ser mais”
Isto gritavam os Zona Dread em relação ao racismo na mítica compilação “Rapublica” em 94, mas generalizando penso que era este o feeling num crescente movimento das ruas para as ruas, ao estilo “For Us by Us”, na então apelidada geração rasca que pela arte pretendia apontar e descriminar os inúmeros preconceitos, estereótipos e forte descriminação racial e social existente.

O querer ser parte activa
E entrámos para mim, num dos maiores Porquês a reter, porque esse olhar da sociedade colocava toda a Cultura no mesmo saco e, mesmo sem querer, criava inúmeras barreiras de aceitação que todos queriam ver derrubadas. Foi esta, pelo menos para mim, uma das mais fortes motivações em começar a escrever e divulgar esta Cultura em 2002. Quebrar estigmas e sentir que se dava a conhecer a Cultura e os seus intervenientes ao público em geral, fazia sentir que se guerrilhava lado a lado com os nossos e se ajudava a cada instante a derrubar mais uma pequena barreira.

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E eu, porque faço isto hoje?
Acima de tudo porque continua a fazer tanto ou mais sentido agora do que nesses tempos. Porque a educação pelas artes é uma realidade e as vertentes da nossa Cultura têm um papel crucial. Porque hoje, a partilha e promoção de ensinamentos e valores, é tanto ou mais necessária; E não me refiro apenas a um publico geral, mas também internamente no seio das próprias vertentes. O que para mim se torna motivo de preocupação.

O Desvanecer da Cultura
E para o fim, a visão mais trágica. Fruto, em parte, de vários dos Porquês abordados acima, parece-me hoje a Cultura cada vez mais segregada, com as vertentes cada vez mais desagregadas… e Porquê? Responde-me Tu… Seja qual for a tua vertente ou a tua actividade na Cultura, Porque fazes esta Arte?

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Em breve este artigo terá sequência com a participação de alguns intervenientes de relevo na cultura para nos relatarem a sua experiência pessoal. Em busca de mais Porquês…

[Update] Conhece já o contributo de:
reflexoreflexoreflexo                        ACE                                                    JV                                                    Dj Kwan

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                   Youthone

Texto por Rui Meireles

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